quinta-feira, 2 de maio de 2013

Final alemã na Liga dos Campeões e a vitória do futebol


No dia 25 de maio, o simbólico estádio de Wembley será palco da final alemã da Liga dos Campeões da Europa. Independendemente de qual clube se sagrar campeão europeu, Bayern de Munique ou Borussia Dortmund, a decisão representa a vitória do futebol e do respeito ao quase utópico espírito esportivo.








No dia 14 de abril, ou seja, no fim de semana seguinte à definição das semifinais da Liga dos Campeões, publiquei aqui neste espaço o texto Semifinais da Liga dos Campeões: dois países, dois modelos de gestão do futebol, em que analisava os dois modelos antagônicos da gestão do futebol adotados na Alemanha e na Espanha. Chamei a atenção para as negociações dos direitos de transmissão televisiva - coletivo na Alemanha, individual na Espanha – e a consequência para a competitividade dos torneios internos. Também falei sobre o paradigma do fair-play financeiro imposto pelas regras da Bundesliga (regulamentadas em um documento de 200 páginas) aos clubes alemães, em contrapartida ao descontrole financeiros dos endividados e, ao meu ver, irresponsáveis Real Madrid e Barcelona. No dia 23 de abril, dia da primeira partida das semifinais, escrevi no Diario de Pernambuco, onde sou estagiário, um texto cujo conteúdo resumia o que havia publicado aqui no blog.

Pois bem, Bayern de Munique e Borussia Dortmund atropelaram a dupla de ferro espanhola Barcelona e Real Madrid. Os bávaros aplicaram duas goleadas: 4 a 0 na partida de ida, na Allianz Arena; e 3 a 0 em pleno Camp Nou, fazendo cair, definitivamente, a imagem de melhor time do mundo da atual geração catalã. O Dortmund também goleou na partida de ida, em casa, fazendo 4 a 1 com um show de Lewandowski. Na volta, no Bernabéu, os alemães perderam por 2 a 0, com dois gols marcados já na segunda metade do segundo tempo, muito mais pela pressão momentânea do que pela construção coletiva do futebol merengue, que não existiu em toda a eliminatória.

Esta será a quarta vez que a final do principal torneio interclubes do mundo será decidida por dois clubes de um mesmo país. Porém, ao contrário da final espanhola de 2000 (em que o Real Madrid bateu o Valência por 3 a 0), da final italiana de 2003 (vencida, nos pênaltis, pelo Milan sobre a Juventus) e até mesmo da final inglesa de 2007/08 (na qual o Manchester United se sagrou campeão em vitória, nos pênaltis, contra o Chelsea - Anelka e o pênalti de US$ 170 milhões), a decisão de 2013 (como publicamos no dia 24 de abril - O ponto de viragem do futebol alemão e uma coincidência histórica – e no último domingo no Diario de Pernambuco, com colaboração do editor do SuperEsportes Marcerl Tito) é ao mesmo tempo reflexo da reestruturação racional de todo o futebol germânico e um prêmio ao trabalho fundamental realizado na transformação de uma visão do futebol, reconhecendo a necessidade de reformular todo um modelo de treinamentos na formação de jovens jogadores.

Mais do que a terceira final entre clubes do mesmo país, no dia 25 de maio, o estádio de Wembley, em Londres, será palco da celebração da vitória do futebol. Do esporte em sua essência. Da busca pela competitividade em respeito ao tão proclamado, porém pouco respeitado, espírito esportivo. Seja o Bayern de Munique campeão europeu pela quinta vez na história ou o Borussia Dortmund levante sua segunda “orelhuda”, os verdadeiros campeões seremos todos nós, apaixonados pelo futebol.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O ponto de viragem do futebol alemão e uma coincidência histórica


Em 1974, os timaços de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach formavam a base da seleção alemã que foi campeã do mundo depois de 20 anos de fila. Sem conquistar um Mundial desde 1990, a Alemanha chegará ao Brasil em 2014 com uma base fortíssima, formada por outros dois timaços: Bayern de Munique e Borussia Dortmund.



Depois da conquista da UEFA Euro 1996, a seleção alemã passou por um período de decadência. Racionais como são, os alemães não se iludiram com a ida à final da Copa do Mundo FIFA 2002, perdida para o Brasil. Depois da Copa do Mundo de 2006, o futebol alemão se viu diante de um ponto de viragem. Ou mudava estruturalmente e essencialmente seu modelo de treinamentos na formação de atletas ou estaria fadado ao insucesso nas competições internacionais com a seleção alemã. Foi então que a Federação contratou o técnico Joachim Löw e deu a ele um contrato de 10 anos para renovar o futebol, investindo na formação de jovens atletas. Em uma década, os clubes da Bundesliga gastaram cerca de R$ 1,8 bilhão (sim, isso mesmo, 1 bilhão e 800 milhões de reais!) em suas categorias de base.

Tendo disputado a Copa do Mundo FIFA 2010 sem a pressão do favoritismo e reconhecendo que não tinha a obrigação de sair da África do Sul como campeã, a Alemanha aproveitou a competição para dar experiência às jovens revelações, que vêm colecionando títulos europeus nas categorias sub-17, sub-19 e sub-21. Um terço da equipe titular alemã em 2010 tinha média de 23 anos de idade.

Atualmente, Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a base da seleção alemã. Dos 23 jogadores que compõem o elenco principal, oito são do Bayern e seis do Dortmund, sendo quatro titulares de cada clube. No total, 18 atletas atuam no futebol alemão. Reflexo da força da Bundesliga e da renovação do futebol germânico.

As novas gerações de Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a prova disso. Com seu estilo de futebol moderno e espetacular, bem diferente do rigor tático e vigor físico que eram as principais características alemãs. Nas semifinais da Liga dos Campeões, os dois timaços germânicos atropelaram a badalada dupla de ferro espanhola – Barcelona e Real Madrid. Os bávaros enfiaram 4x0 nos catalães. Enquanto os aurinegros fizeram 4x1 nos madrilenhos.

A expectativa, portanto, é de que a dupla Bayern de Munique e Borussia Dortmund possa repetir o feito de uma outra dupla bem sucedida na história da seleção nacional alemã: Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach.

1974

Forças absolutas da Bundesliga nos anos 1970, as gerações de ouro de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach serviram de base para a seleção que saiu da fila de 20 anos e conquistou a Copa do Mundo FIFA 1974. Eram times formados por nomes históricos, como Sepp Maier, Paul Breitner, Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uli Hoeness (Bayern) e Berti Vogts, Herbert Wimmer, Jupp Heynckes, Rainer Bonhof (M’gladbach). O meia Günther Netzer, que atuava no Real Madrid em 1974, fora formado no M’gladbach, onde atuou de 1963 a 1973.

Com a mesma base, o Bayern conquistou 4 campeonatos nacionais, 3 europeus e 1 mundial ao longo daquela década, enquanto o M’gladbach ficou com 5 alemães, 2 Copas da UEFA e 1 vice-europeu.

2014

Manuel Neuer, Philipp Lahm, Holger Badstuber, Jérôme Boateng, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos, Mario Gomez, Thomas Müller, Mario Götze, Roman Weidenfeller, Mats Hummels, Marcel Schmelzer, Ilkay Gündoğan e Marco Reus. São as principais estrelas de Bayern de Munique e Borussia Dortmund. Anotem esses nomes. Eles poderão levantar a Taça FIFA em pleno Maracanã no dia 13 de julho de 2014.

domingo, 14 de abril de 2013

Semifinais da Liga dos Campeões: dois países, dois modelos de gestão do futebol



Bayern de Munique x Barcelona e Borussia Dortmund x Real Madrid. Quis o sorteio da UEFA Champions League que espanhóis e alemães se enfrentassem nas semifinais do maior torneio interclubes do mundo, proporcionando a possibilidade de uma final totalmente alemã ou espanhola. Mais do simples confrontos entre clubes de dois países, as semifinais da Liga dos Campeões 2012/13 coloca frente a frente dois modelos bastante distintos na gestão do futebol. Desde as negociações dos direitos de transmissão televisiva – negociação coletiva Vs. negociação individual – ao controle financeiro dos clubes e das Ligas.

Bayern de Munique e Borussia Dortmund representam a Alemanha, país em que o futebol é controlado e racional, visando a garantir o máximo de competitividade possível. Do lado oposto, estão Barcelona e Real Madrid, representando a Espanha, sem organização hierárquica, com dois gigantes vorazes e egoístas, bipolarizando as disputas internas.

Certamente, uma final entre Barcelona x Real Madrid seria como a realização de um sonho para a UEFA e todos os seus patrocinadores, bem como para as redes de televisão que pagam a peso de ouro pelas transmissões da Champions League, além, claro da imensa maioria dos fãs de futebol. Afinal, Real Madrid e Barcelona são, respectivamente, os dois clubes de futebol que mais faturam em todo o mundo. Para não falar das constelações que compõem os elencos de ambos os times. Do ponto de vista meramente passional, da ideia do espetáculo pelo espetáculo, ver os dois gigantes espanhóis, cuja rivalidade vai muito além das quatro linhas, em uma final de Liga dos Campeões seria realmente fantástico e histórico.

Porém, analisando-se a representação simbólica de uma decisão entre dois clubes monopolizadores, de uma Liga injusta e desigual em sua essência, surge o questionamento: o que seria melhor para o futebol? Uma final espanhola significaria a vitória do negócio do futebol sem controle de gastos e das dívidas astronômicas em nome do pretenso espetáculo? Ou uma final alemã seria o símbolo de que é possível ser competitivo com os pés no chão, controlando os gastos, estando em uma Liga financeiramente equilibrada?

Negociações individuais Vs. Negociações coletivas

Na Espanha, La Liga possui modelo de negociações individuais, em que cada clube negocia a venda dos seus direitos televisivos diretamente com a rede de televisão. Este modelo tem gerado uma profunda desigualdade e acarretado em uma enorme perda de competitividade do Campeonato Espanhol.

Real Madrid e Barcelona, auferem 144 milhões de euros e 133 milhões de euros, respectivamente, pelos seus contratos com a empresa Mediapro. Estes dois clubes arrecadam 47% do total das receitas televisivas de La Liga. O terceiro no ranking é o Valência, que recebe 44 milhões de euros, ou seja, três vezes menos do que a dupla de ferro. Logo em seguida vem o Atlético de Madrid, com 42 milhões de euros. Clubes tradicionais como Athletic Bilbao e Sevilha recebem cerca de 20 milhões de euros, isto significa sete vezes menos que os dois principais clubes do país. Estes contratos têm validade até 2015.

Não por acaso, nos últimos 15 anos, apenas em três ocasiões os campeões não foram Barcelona ou Real Madrid. Isso aconteceu na temporada 1999/2000 com o Deportivo La Coruña e nas épocas 2001/02 e 2003/04 com o Valência.

Nos últimos nove campeonatos (contando que o Barcelona será campeão este ano), o título ficou entre Barcelona (seis vezes) e Real Madrid (três vezes). Nesse mesmo período, apenas em uma ocasião a dupla de ferro não ficou nas duas primeiras colocações. Em 2007/08, o Villareal foi o vice-campeão (Real Madrid campeão e o Barcelona ficou em 3º). Por sinal, o Villareal, último time a se intrometer na bipolarização, foi rebaixado para a segunda divisão espanhola na temporada passada, 2011/12.

Na Alemanha, a Bundesliga, composta por 36 clubes (18 da primeira divisão e 18 da segundona), negocia os direitos de transmissão coletivamente e divide 75% dos valores entre os clubes da elite e 25% é repartido entre os participantes da segunda divisão. O último contrato assinado em 2010 com a operadora Sky, rendeu 1,5 bilhão de euros por temporada para a Bundesliga. Ou seja, 1,125 bilhão de euros é dividido pelos clubes da primeira divisão, enquanto 375 milhões de euros é repassado para os participantes da segunda divisão alemã.

Nos últimos dez anos (contando a temporada 2012/13), a Bundesliga teve cinco campeões diferentes: Bayern de Munique (5x), Borussia Dortmund (2x), Wolfsburg, Sttuttgart e Werder Bremen. Nesse mesmo período, o Schalke 04 foi vice-campeão em três ocasiões, o Werder Bremen em duas e o Leverkusen uma vez.

Não por acaso, enquanto os direitos de transmissão televisiva representam 39% do faturamento do Real Madrid e 37% do Barcelona, não passam de 32% e 22% do faturamento de Borussia Dortmund e Bayern de Munique, respectivamente.

Dívidas astronômicas Vs. Fair-play financeiro

O futebol europeu, de modo geral, reflete a crise que assola o Velho Continente. Vários clubes, das principais ligas, têm dívidas astronômicas. Com exceção de um país. A Alemanha. Refletindo a economia da nação mais estável da Zona Euro, o futebol alemão é o exemplo inequívoco de um esporte financeiramente saudável. Enquanto na Inglaterra, os clubes somam uma dívida de cerca de 4 bilhões de Euros. Na Espanha, são quase 4,2 bilhões de Euros. Por outro lado, na Alemanha, dos 36 clubes da Bundesliga, 33 têm lucros.

De acordo com os estudos da Deloitte Football Money League, nos últimos quatro anos, Real Madrid e Barcelona foram os dois clubes que mais faturaram no futebol mundial. Os Merengues lideram a lista há praticamente uma década. Na temporada 2011/12, o clube da capital espanhola bateu um recorde histórico: foi o primeiro a faturar acima dos 500 milhões de Euros. Totalizando 512,6 milhões de Euros. Seguindo os passos do grande rival, o Barcelona auferiu 483 milhões de Euros em 2011/12.

Mas se madrilenhos e catalães batem recordes de faturamento ano após ano, as dívidas de ambos também crescem de forma espantosa. O Real Madrid deve nada menos que 660 milhões de Euros (algo como R$ 1,5 bilhão). O Barcelona não fica muito atrás, com sua dívida de 549 milhões de Euros, o que acarreta em um patrimônio negativo de € 59 milhões. Falando do descontrole financeiro do futebol espanhol, o Governo da Espanha declarou, há um anos, que seus clubes devem € 752 milhões de impostos.

200 páginas. Esse é o tamanho do documento que regulamenta como o futebol deve ser administrado pelos clubes da Bundesliga. Implementadas há cerca de uma década, as regras impõem um rigoroso controle financeiro às entidades esportivas que queiram participar da primeira e segunda divisões do Campeonato Alemão. As normas, resumidamente, impedem que os clubes ajam como adolescentes descontrolados com o cartão de crédito roubado dos pais. Na Alemanha, só se pode gastar aquilo que se pode pagar. Seria elementar e óbvio, não fosse uma exceção em todo o mundo do futebol.

Os clubes alemães são obrigados a abrirem suas contas para os fiscais da Bundesliga e têm que provar liquidez financeira suficiente para terminarem a temporada com saldo positivo. Caso contrário, o clube é punido. As sanções vão desde a perda de pontos (como ocorreu, recentemente, com o Arminia) ao impedimento de participar da Bundesliga.

Além disso, na Alemanha não há clubes que pertençam a sheiks árabes, magnatas russos ou norte-americanos bilionários. Todos os clubes pertencem aos torcedores (sócios), que detêm 51% das ações. As exceções são os históricos Wolfsburg (Volkswagen) e Bayer Leverkusen (Bayer), mas que são parte integradas às suas respectivas cidades.

Não é por acaso, portanto, que o Bayern de Munique apresente lucros por 20 anos consecutivos. Os bávaros têm o quarto maior faturamento do mundo, com € 368,4 milhões em 2011/12. Nesse mesmo período, o lucro líquido do maior clube alemão foi de espantosos € 332,2 milhões (R$ 877 milhões). Isso em uma temporada que o Bayern passou totalmente em branco, sem conquistar qualquer título, sendo vice-campeão europeu, alemão e da Copa da Alemanha.

Mais modesto, se comparado ao gigante bávaro, o Borussia Dortmund também registrou um bom lucro líquido na temporada 2011/12. Com um faturamento recorde de 215,2 milhões de Euros, o Dortmund teve um lucro de € 39,3 milhões (livre de impostos). A dívida reduziu de € 56,1 milhões para € 15,5 milhões, representando uma redução de € 40,6 milhões em um ano.

Recentemente, os aurinegros anunciaram lucro de € 17, 5 milhões no primeiro semestre do ano fiscal 2012/13. O resultado é 22 vezes maior do que o apresentado no mesmo período da temporada passada. É de se imaginar que se bata novamente o recorde, uma vez que a chegada à semifinal da Liga dos Campeões representa um faturamento enorme.

Resumindo, enquanto Real Madrid e Barcelona têm prejuízos ano após ano e acumulam dívidas de € 660 milhões e € 549 milhões, o Bayern de Munique tem lucros sucessivos há 20 anos e o Borussia Dortmund tem batido seus recordes de lucros, reduzindo sua dívida a um patamar administrável de apenas € 15,5 milhões, vislumbrando uma redução ainda maior, já que a temporada 2012/13 já se apresenta como lucrativa.

Categorias de base – modelo a ser seguido

Apesar dos prejuízos e das dívidas, o Barcelona é um modelo no que diz respeito às categorias de base. Inspirada e influenciada pelos holandeses Rinus Michels (criador do “carrossel holandês”) e Johan Cruyff (gênio da “Laranja Mecânica” dos anos 1970), La Masia é referência na formação de jovens craques. A base da seleção espanhola, campeã do mundo e bicampeã europeia saiu de lá: Xavi, Iniesta, Puyol, Piqué e Fàbregas. Para não falar do melhor jogador mundo, o argentino Lionel Messi, que chegou ao clube catalão com 13 anos de idade. O Real Madrid, por seu turno, dentre os titulares apenas Iker Casillas foi formado em La Fabrica. Casillas, por sinal, tem ficado no banco, após desentendimentos com o técnico José Mourinho.

Depois da Copa do Mundo de 2006, o futebol alemão se viu diante de um ponto de viragem. Ou mudava seu modelo de treinamentos na formação de atletas ou estaria fadado ao insucesso nas competições internacionais com a seleção alemã. Foi então que a Federação contratou o técnico Joachim Löw e deu a ele um contrato de 10 anos para renovar o futebol, investindo na formação de jovens atletas.

Na Copa do Mundo de 2010, a Federação alemã não viu problemas em reconhecer que sua seleção não chegava à competição como favorita e não tinha a obrigação de sair campeã. O objetivo era outro: dar experiência às revelações. O time base alemão tinha um terço de jogadores com média de 23 anos de idade.

Atualmente, Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a base da seleção alemã. Dos 23 jogadores, oito são do Bayern e cinco do Dortmund, sendo quatro titulares de cada clube. No total, 18 jogadores atuam no futebol alemão. Reflexo da força da Bundesliga e da renovação do futebol germânico.

Em recente entrevista ao canal ESPN Brasil, Paul Breitner, ídolo e “embaixador” do Bayern de Munique, afirma que o Barcelona serviu de inspiração para o clube bávaro e também para o futebol alemão. Lembrando, sempre, que esse trabalho deve se iniciar com jovens adolescentes, sendo projetado para gerar frutos a médio prazo. “Você tem que compreender que para mudar sua forma de jogar futebol, são precisos no mínimo seis ou oito anos de trabalho. Não adianta tentar mudar jogadores que tenham 17, 18, 19 anos de idade. Você precisa começar a trabalhar com eles aos 12, 13 anos de idade”, analisou.

Guiado pelo modelo catalão, o futebol alemão, com a racionalidade que é característica à sua cultura, conseguiu se transformar. As novas gerações de Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a prova disso. Com seu estilo de futebol moderno e espetacular, bem diferente do rigor tático e vigor físico tradicionais alemães.

Conclusão

As semifinais da Liga dos Campeões não colocarão frente a frente apenas Bayern x Barcelona ou Dortmund x Real Madrid. Estará em disputa o modelo de se pensar e gerir o futebol em sua totalidade. De um lado, o modelo alemão de controle financeiro e primazia à competitividade através de divisão equânime dos recursos; do outro, o modelo espanhol de descontrole, prejuízos financeiros e desigualdade nas competições internas.

E aí, qual é o modelo que o futebol merece ter? O modelo da competitividade e do fair-play financeiro? Ou o modelo desigual e insano em sua essência?

Eu assumo minha posição: torcerei por uma final alemã. Pelo bem do futebol, que Bayern de Munique x Borussia Dortmund pisem o gramado de Wembley no dia 25 de maio e mostrem ao mundo que existe uma alternativa para além dos gastos exacerbados e da irresponsabilidade na gestão desportiva.

“Nós contratamos jogadores com o nosso dinheiro”, Paul Breitner, ídolo e ‘embaixador’ do Bayern de Munique, no programa Bola da Vez (ESPN Brasil), explicando que seu clube não precisa de empréstimos em bancos ou de investidores para contratar reforços.




Adquira o livro "Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro - apartheid futebolístico e risco de espanholização".

Preço: R$ 30,00
Contato: emanuel.leite.junior@gmail.com


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Pênalti é loteria? A economia mostra que não


Há um momento no futebol que deve ser unânime entre torcedores, repórteres esportivos, treinadores e jogadores como o mais tenso de todos: a cobrança de pênalti. Para muitos, o pênalti é uma verdadeira loteria. Para outros, uma grande injustiça. Mas se tem uma situação no jogo de futebol, dentro das quatro linhas, em que a economia melhor poder ajudar a explicar, ela é a cobrança de pênalti. E mais: os pênaltis podem ajudar a compreendermos a teoria dos jogos. Entenda como PSV, Holanda e Alemanha já se deram bem recorrendo a essa estratégia, e como Anelka deu um prejuízo de US$ 170 milhões ao Chelsea por não seguir as orientações recebidas.

A teoria dos jogos é utilizada para analisar como as estratégias de diferentes agentes interagem em determinada situação. Os norte-americanos usaram esta teoria de forma exaustiva durante a Guerra Fria. O governo dos EUA recorria com freqüência à teoria dos jogos para planejar suas interações com a União Soviética e tentar antecipar os passos dos soviéticos. Talvez a crise dos mísseis em Cuba seja um dos casos mais emblemáticos do uso da teoria dos jogos por parte do governo norte-americano.

Mas o que é, de forma simplificada, a teoria dos jogos? E como a cobrança de pênalti ajudar a compreender essa teoria? É que a teoria dos jogos estuda situações de interação exatamente como a de um cobrador de pênalti frente a frente com um goleiro: o que eu devo fazer depende do que você faz, e o que você deve fazer depende do que eu faço. Resumindo: para onde o batedor deve chutar a bola e para onde o goleiro deve pular? A estratégia de cada um dependerá da ação um do outro.

Renomados economistas, como, por exemplo, Steve Levitt, autor do livro Freakonomics, já estudaram e publicaram artigos sobre as cobranças das grandes penalidades. E de que forma os economistas podem ajudar cobradores de pênaltis e goleiros no momento da mais alta tensão no esporte mais popular do mundo?

Os teóricos dos jogos têm condições de criar estratégias para os jogadores de futebol. Engana-se quem pensa que esse é um tema restrito somente à teoria e que dificilmente se verifica na prática. Clubes e seleções já recorreram aos dados de economistas e estudiosos para traçarem suas estratégias em casos de decisões por pênaltis.

Com o tempo, cobradores de pênaltis e goleiros constroem um histórico de suas estratégias. Basta um olhar mais atento e uma dedicação a analisar os jogos de seus adversários em partidas decisivas para se levantar um banco de dados com os hábitos dos principais cobradores de pênaltis e dos goleiros oponentes. Foi o que Steve Levitt e seus colegas economistas fizeram. Eles perceberam que determinado goleiro sempre pulava para o lado esquerdo ou que um certo cobrador costumava bater sempre no canto direito, rente ao chão ou a meia altura. E por aí vai.

Em 1988, o PSV Eindhoven decidiu a Copa dos Campeões da Europa com o Benfica, na cidade alemã de Stuttgart. Antes da grande decisão, o goleiro do PSV, Hans van Breukelen, telefonou para o técnico Jan Reker, detentor de um banco de dados sobre cobranças de pênaltis. Todas as cinco primeiras cobranças do Benfica foram convertidas. Van Breukelen defendeu a sexta, cobrada por Veloso. O PSV foi campeão europeu.

Cético, você poderá dizer que tudo não passou de mera coincidência, afinal de contas cinco cobranças do Benfica foram bem sucedidas e apenas a sexta é que foi defendida pelo goleiro do PSV. Tudo bem. Pode ter sido apenas coincidência. Acontece que no mês seguinte, a Holanda batia a União Soviética por 2 a 0, na final da Euro 1988. Van Breukelen cometeu um pênalti. Se os soviéticos diminuíssem o jogo poderia mudar de figura. O goleiro, mais uma vez, recorreu ao banco de dados de Reken e... Defendeu o pênalti cobrado por Igor Belanov. Esse é, até hoje, o único grande título da seleção holandesa.

Em 2006, Alemanha e Argentina se enfrentaram nas quartas de final da Copa sediada na Alemanha. A decisão da vaga na semifinal terminou indo para os pênaltis. Os alemães tinham uma base de dados de 13 mil chutes. Sim, 13 mil! O goleiro Jens Lehmann foi para o seu gol com uma cola guardada no meião. Na cola, uma lista com a forma como sete jogadores argentinos cobravam seus pênaltis. Dos sete, apenas dois foram cobrar. Um deles, Ayala, cumpriu à risca o que estava anotado na cola de Lehmann: após esperar muito tempo, deu uma longa corrida e chutou para a direita. Lehmann defendeu.

O último argentino a cobrar foi Cambiasso. A decisão estava 4 a 2 para a Alemanha. Lehmann consultou sua cola. O papel amassado, suado e escrito a lápis impediu que o goleiro compreendesse o que estava na lista. Cambiasso percebeu a movimentação de Lehmann e que ele consultava algo. Aí entra a teoria dos jogos e a pressão. Certamente Cambiasso pensou – “o que ele sabe? Será que ele sabe onde vou bater?”. Intimidado, Cambiasso teve sua cobrança defendida por Lehmann e a Alemanha avançou para a semifinal da Copa.

Anelka e o pênalti de US$ 170 milhões

Eis que chegamos ao francês Nicolas Anelka e à decisão por pênaltis da Liga dos Campeões da Europa de 2008, que envolveu os ingleses Manchester United e Chelsea. O treinador dos Blues era o israelense Avram Grant, amigo de um professor de uma universidade israelense, que, por sua vez, era muito amigo do economista basco Ignacio Palacios-Huerta.

Ignacio começou a estudar cobranças de pênaltis em 1995, ainda estudante da Universidade de Chigado e publicou um estudo sobre o tema em 2003. O amigo de Avram Grant colocou os dois em contato, pensando que Ignacio poderia ajudar o Chelsea de Grant com seu banco de dados.

O economista basco enviou para Grant um relatório e transcrevo os quatro comentários que ele fez sobre o Manchester United e as cobranças de pênaltis.

1 - Van der Sar tendia a saltar para o “lado natural” do cobrador mais vezes do que a maioria dos goleiros. Ou seja: diante de um cobrador destro, ele saltaria para a sua direita; diante de um canhoto, saltaria para a sua esquerda. Portanto, os jogadores do Chelsea deveriam cobrar para o “lado não natural”.

2 - A imensa maioria dos pênaltis defendidos por Van der Sar são chutados a meia-altura. Pênaltis contra ele deveriam ser cobrados junto ao solo ou altos.

3 - Ronaldo com freqüência dá uma parada na corrida para a bola. Se ele parar, provavelmente (85% de chances) chutará do lado direito do goleiro. E enfatizou: Ronaldo pode mudar de ideia no último instante. O goleiro não podia se antecipar, caso o fizesse, ele sempre marcava.

4 - O time que vencer o sorteio antes da cobrança deve escolher cobrar primeiro. Mas isso é banal: sempre se deve cobrar primeiro. Times que cobram primeiro vencem 60% das vezes, presumivelmente porque há muita pressão sobre o segundo a cobrar, que sempre precisa marcar para salvar o jogo.

O Manchester United venceu o sorteio. O capitão dos Red Devils, Rio Ferdinand, escolheu, logicamente, que seu time iniciaria as cobranças.

Vejam as cobraças no vídeo abaixo e eu já volto com alguns comentários.



Viram como Ballack e Belletti seguiram as orientações de Ignacio? O alemão cobrou alto à esquerda de Van der Sar, enquanto o brasileiro mandou a bola junto ao chão, também à esquerda do goleiro holandês.

E então foi a vez de Cristiano Ronaldo partir para a bola. E o que faz o português? Exatamente aquilo que Ignacio previra: dá uma parada na corrida e manda a bola no lado direito do goleiro. O que fez Petr Cech? Seguiu o conselho do economista basco: ele não deveria se antecipar e não se antecipou. Cech esperou a cobrança, que veio no seu lado direito e defendeu. Voltem ao vídeo. Revejam o lance. Pois é.

Na sequência, mais quatro cobranças do Chelsea, todas seguindo as orientações de Ignacio. Inclusive John Terry com sua célebre escorregada na grama molhada. Van der Sar saltou para o lado direito. Terry mandou alto, no lado esquerdo. Mas escorregou. A bola bateu na trave e saiu.

Chega a vez da sétima cobrança do Chelsea. O francês Nicolas Anelka vai para a bola. Se ele perde, o United é campeão. Naquele momento, Van der Sar já havia percebido que o Chelsea adotara uma estratégia para a cobrança de pênaltis. Provavelmente, ele pensou que os adversários optaram bater sempre para o seu lado esquerdo. O holandês chega a apontar para o lado esquerdo, como quem diz a Anelka “eu sei que você vai bater aqui”.

E é nesse momento que entra a teoria dos jogos. Anelka sabia que Van der Sar sabia que Anelka sabia que Van der Sar costumava saltar para a direita quando estava diante de jogadores destros. Imaginem essa tensão no momento em que você tem, em seus pés, a chance de manter seu time na luta pelo principal título de clubes do futebol mundial ou de decretar sua derrota.

Ignacio havia recomendado que jogadores destros cobrassem para o lado esquerdo de Van der Sar. Mas Anelka ficou intimidado com a postura de Van der Sar. O francês, então, resolveu não seguir as orientações do economista basco. O que ele faz? Muda o lado. Decide bater para o canto direito do goleiro holandês, aquele em que ele tinha maior facilidade para defender pênaltis cobrados por destros.

A estratégia de Anelka até poderia ter dado certo. Mas não deu. Qual foi o motivo? Voltem ao vídeo. Viram? O francês bateu a meia-altura. Ignacio havia escrito em seu relatório: “a imensa maioria dos pênaltis defendidos por Van der Sar são chutados a meia-altura. Pênaltis contra ele deveriam ser cobrados junto ao solo ou altos.” Anelka cobrou a meia-altura. Van der Sar defendeu, como sempre costumava fazer em bolas a meia-altura. E o Chelsea deixou de faturar, segundo analistas, cerca de US$ 170 milhões.

Os jogadores de futebol seguem uma tendência quando vão cobrar pênaltis. Todos têm um lado preferencial. Assim como os goleiros têm um lado para o qual costumam saltar mais ou terem maior facilidade para defender. Os pênaltis, contudo, são aleatórios. E é essa aleatoriedade na cobrança de pênaltis que torna esse momento tão tenso e emotivo. Não há cálculos, nem banco de dados, que possam prever para que lado vai cobrar um bom profissional, que saiba executar com precisão a sua cobrança.

Que o diga Franck Ribéry. O francês do Bayern Munique é um dos poucos jogadores que, ao partir para a bola, não tem definido para que lado baterá. Ribéry é um profissional exemplar e também o elemento capaz de quebrar toda a teoria dos jogos.

Porém, com a teoria dos jogos, e mesmo com a aleatoriedade e principalmente por conta dos bons profissionais, torna-se simplório afirmar que pênalti é loteria e injusto dizer que os pênaltis são uma injustiça.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Júlio César seguirá os passos de Van der Sar?


Agosto de 2001. Aos 31 anos de idade, o goleiro holandês Edwin van der Sar se transfere da Juventus da Itália para o Fulham, pequeno clube da zona Oeste da cidade de Londres, que tinha acabado de volta à Premier League. Depois de dois anos frustrantes no maior campeão italiano, Van der Sar, que havia conquistado tudo o que tinha para conquistar com o Ajax, mudou-se para a capital inglesa em busca de um novo rumo em sua carreira. Para muitos, porém, a crise na Juventus e a opção por jogar em um time pequeno, que não disputava a competição de elite em seu país há 33 anos, era um fim de carreira melacólico.

Agosto de 2012. Aos 32 anos, o goleiro brasileiro Júlio César se transfere da Inter de Milão, Itália, para o Queens Park Rangers, um pequeno clube da zona Oeste da cidade de Londres. O QPR havia retornado à Premier League no ano anterior e não caiu por pouco, ficando na 17ª posição na temporada 2011/12. Fora da Seleção Brasileira desde as quartas de final da Copa do Mundo de 2010, Júlio César saiu da Inter de Milão (onde havia ganho tudo) de forma melancólica, praticamente dispensado após uma temporada muito fraca, em que foi criticado por dirigentes e pela torcida. Para Júlio César a opção por Londres era a possibilidade de aprender inglês e viver em uma das melhores cidades do mundo. Para os analistas, era um fim de carreira melancólico.

Van der Sar passou quatro temporadas no Fulham. O máximo que conseguiu a serviço do clube londrino foi um nono lugar em 2003/04 e a conquista da insignificante Copa Intertoto de 2002. Mas suas grandes atuações o recolocaram no mais alto patamar. O Van der Sar eclipsado dos tempos da Juventus ficaram para trás. Estava de volta o grande Edwin do Ajax e da Seleção Holandesa. Isso chamou a atenção de Sir Alex Fergunson, que em agosto de 2005 o levou para o Manchester United.

Nos Red Devils, Van der Sar foi titular absoluto, conquistando quatro Premier Leagues, uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes. Suas performances o alçaram ao rol dos maiores goleiros da história do United. Para muitos, inclusive, Van der Sar foi melhor que o mítico dinamarquês Schmeichel.

Júlio César está a apenas meia temporada no Queens Park Rangers. O time amarga a lanterna da Premier League praticamente desde a primeira rodada. Passadas 23 rodadas de 38, o pequeno clube do Oeste de Londres está fadado ao rebaixamento. As atuações do goleiro, entretanto, não passaram despercebidas, apesar do mau desempenho do seu time.

Na última terça-feira, 22 de janeiro, o técnico da Seleção Brasileira Luiz Felipe Scolari fez a primeira convocação da Canarinha após o seu retorno ao comando do pentacampeão mundial. Para a surpresa de muitos, Felipão convocou Júlio César para o amistoso com a Inglaterra, que será disputado no dia 6 de fevereiro.

No dia seguinte à convocação de Júlio César para a Seleção Brasileira, o jornal inglês The Sun publicou que Manchester United e Arsenal estariam interessados em contratar o goleiro brasileiro e que em breve devem formalizar propostas pelo arqueiro. Aos 33 anos de idade, Júlio César é considerado por Alex Fergunson (e também por Arsène Wenger) como experiente o suficiente para assumir a titularidade do Manchester United (ou do Arsenal).

Eis que passados sete anos, as trajetórias de dois grandes goleiros se cruzam de alguma forma. Em 2001, Van der Sar chegou desacreditado a um pequeno time do Oeste de Londres. Em 2005, foi para o Manchester United e deu a volta por cima, voltando a figurar entre os melhores do mundo. Em 2012, Júlio César foi para outro pequeno time do Oeste de Londres. Em 2013, as portas do United, aparentemente, abrem-se para o brasileiro... Júlio César seguirá os passos de Van der Sar?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quando a derrota se torna mais interessante que a vitória


Ao longo da história, o futebol brasileiro sempre foi pródigo em presentear os torcedores com regulamentos esdrúxulos, para não falar das famigeradas viradas de mesa que vez ou outra assombravam o esporte nacional. Com o advento do Estatuto do Torcedor (Lei nº 10.671, de 2003), a situação melhorou um pouco. Passou a haver um maior respeito ao mérito desportivo e, principalmente, uma segurança com relação ao cumprimento dos regulamentos.

Os nossos dirigentes, entretanto, continuam sendo, em sua maioria, os mesmos. Aqueles de tempos em que os regulamentos podiam ser rasgados ou de fórmulas de disputas mirabolantes. Vez ou outra, ao que parece, eles tentam voltar a exercer aquela criatividade caricata de outrora. Eis que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) resolveu presentear os torcedores com um regulamento curioso. Uma fórmula em que, por mais incrível que possa aparentar, a derrota se tornará, para alguns clubes, mais interessante que a vitória.

Com a reformulação do calendário do futebol brasileiro, a Copa do Brasil teve seu período de duração estendido e, desta forma, ocorrerá de forma concomitante com o Campeonato Brasileiro, a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana. Pois bem, ao contrário do que acontece na Europa (em que um clube disputa o campeonato nacional, a copa nacional [e a copa da liga, no país em que existe] e o torneio continental), no Brasil, o clube que quiser disputar a Copa Sul-Americana de 2013 não poderá se classificar para as oitavas de final da Copa do Brasil. Por conta do calendário genial de nosso futebol, é inviável que um clube dispute os dois torneios.

Diante disto, chega-se a uma aberração sem precedentes: um time poderá entrar em campo para perder! Ou seja, ao contrário do que é lógico e natural no esporte, que é a busca pela vitória, o clube que quiser disputar um torneio continental terá que abrir mão da vitória em uma competição nacional (optando pela derrota desportiva).

Essa regra é uma contradição diante do modelo desportivo no qual o futebol brasileiro encontra seus alicerces e sua estrutura. No que diz respeito à forma de disputa de nossas competições, nós nos inserimos no sistema vertical.

Como se estrutura o sistema vertical?

O sistema vertical encontra seus pressupostos no mérito desportivo, quer dizer, na obtenção dos resultados desportivos em uma competição a fim de se ascender ou descender, bem como de se obter classificação a uma competição internacional.

As competições ocorrem simultaneamente, e um clube pode ser campeão ou chegar a uma competição internacional, como, ao mesmo tempo, corre o risco de ser rebaixado; enquanto que um clube de divisão hierárquica inferior pode ascender através de suas conquistas desportivas e, um dia, almejar chegar a uma competição internacional.

A regra de classificação para a Copa Sul-Americana é uma contradição ao próprio sistema em que o futebol brasileiro está inserido e no qual encontra sua base de sustentação (jurídica, lógica e, acima de tudo, desportiva).

Exemplo prático da aberração:

O Náutico disputou a Copa Libertadores da América em 1968. Os torcedores alvirrubros se orgulham de dizer que são os pioneiros do estado de Pernambuco na mais importante competição da América do Sul.

Com a boa campanha no Campeonato Brasileiro de 2012, em que terminou na 12ª colocação com 49 pontos, o Náutico tem a possibilidade de, em 2013, voltar a ser o pioneiro de Pernambuco em outra competição continental. Desta vez, a Copa Sul-Americana.

Entretanto, para poder disputar a Sul-Americana, o Timbu poderá se ver diante de uma situação em que terá que PERDER na Copa do Brasil para participar da competição continental.

Chegando à terceira fase da Copa do Brasil 2013, o Náutico terá que optar entre prosseguir na competição nacional ou preferir ser eliminado para, assim, ter o direito de disputar a Copa Sul-Americana e, desta forma, concretizar o sonho de voltar a uma competição nacional (novamente na condição de pioneiro em seu estado).

Entenderam o contrassenso da regra? Em nosso modelo desportivo, o grande objetivo é a busca por vitórias e títulos. O sucesso desportivo (ganhar jogos, ser campeão) está acima de tudo, dentro da lógica da estrutura do nosso futebol.

Estava. A CBF criou uma fórmula em que perder pode ser melhor do que vencer. Uma regra em que um clube entrará em campo à procura não da vitória, mas sim à espera da derrota.

É ou não é uma aberração?

Náutico será único pernambucano na elite pela oitava vez


Ontem, o Náutico venceu o Sport por 1 x 0 e rebaixou o rival para a Série B. Em 2013, o Náutico será o único representante de Pernambuco na Série A. Com isso, o clube alvirrubro será o único pernambucano na elite do futebol nacional pela oitava vez na história. Iguala-se, assim, ao próprio Sport.

Vale ressaltar que eu levo em consideração todos os campeonatos nacionais a partir da Taça Brasil de 1959, de acordo com a unificação da própria CBF (que ocorreu em 2010). É por conta dessa unificação, por exemplo, que todos se referem ao título do Fluminense como o quarto nacional de sua história. Sobre o tema, é possível ler minha opinião aqui: http://conversasfutebolisticas.blogspot.com.br/2012/05/unificacao-dos-titulos-do-campeonato.html

É possível que se diga que entre 1959 e 1970 (Taça Brasil e Taça de Prata – Robertão), não havia segunda divisão. É bom lembrar, então, que de 1973 a 1979 só houve a 1ª Divisão. Para não falar de campeonatos como os de 1987 ou 2000 (cada um com sua peculiaridade).

Por fim, mesmo que você queira insistir que não se devam levar em consideração as Taças Brasil e de Prata, 2013 não será o primeiro ano do Náutico como único pernambucano na Série A/1ª Divisão. Em 1990, o alvirrubro foi o único representante de Pernambuco na elite nacional.

Náutico, 8 vezes: 1961, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968*, 1990 e 2013
Sport, 8 vezes: 1959, 1962, 1963, 1995, 1996, 1997, 1998 e 1999
Santa Cruz, 3 vezes: 1960, 1969 e 1970.

*O Náutico foi o único pernambucano tanto na Taça Brasil quanto na Taça de Prata (Robertão).

domingo, 25 de novembro de 2012

Único pernambucano na elite do futebol nacional

É muito grande a possibilidade de o Náutico ser o único representante de Pernambuco na elite do futebol brasileiro. Muita gente, entretanto, pensa que esta será a primeira vez na história do Campeonato Brasileiro que o Náutico estará sozinho como clube pernambucano na elite. Mas não é assim.

A se confirmar o rebaixamento do Sport no próximo domingo (o rubro-negro tem que ganhar do Náutico nos Aflitos e torcer por uma derrota de Portuguesa ou Bahia, para permanecer na Série A em 2013), esta será a oitava vez que o Náutico representará, sozinho, o estado de Pernambuco na elite. Desta forma, vai se igualar ao Sport, que em oito ocasiões foi o único pernambucano na elite nacional.

Vale ressaltar que eu levo em consideração todos os campeonatos nacionais a partir da Taça Brasil de 1959, de acordo com a unificação da própria CBF (que ocorreu em 2010). É por conta dessa unificação, por exemplo, que todos se referem ao título do Fluminense como o quarto nacional de sua história. Sobre o tema, é possível ler minha opinião aqui: Unificação dos títulos do campeonato brasileiro.

É possível que se diga que entre 1959 e 1970 (Taça Brasil e Taça de Prata – Robertão) não havia segunda divisão. É bom lembrar, então, que de 1973 a 1979 só houve a 1ª Divisão. Para não falar de campeonatos como os de 1987 ou 2000 (cada um com sua peculiaridade).

Por fim, mesmo que você queira insistir que não se devam levar em consideração as Taças Brasil e de Prata, 2013 não será o primeiro ano do Náutico como único pernambucano na Série A/1ª Divisão. Em 1990, o alvirrubro foi o único representante de Pernambuco na elite nacional.

Sport, 8 vezes: 1959, 1962, 1963, 1995, 1996, 1997, 1998 e 1999
Náutico, 7 vezes: 1961, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968* e 1990
Santa Cruz, 3 vezes: 1960, 1969 e 1970.

*O Náutico foi o único pernambucano tanto na Taça Brasil quanto na Taça de Prata (Robertão).

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Alepe aprova: álcool sim, meia-entrada não



Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que sempre fui contrário à legislação que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol de Pernambuco.

E minha posição sempre se fundamentou no fato de eu acreditar que a violência entre as torcidas de futebol não ocorre por conta do consumo de bebida alcoólica dentro do estádio. E por diversos motivos.

Por exemplo, as bebidas são consumidas livremente nos arredores das praças esportivas (pior: dentro das áreas sociais dos próprios clubes). Além disso, o grande foco de violência em torno do futebol em nosso país ocorre nos confrontos entre as torcidas organizadas, o que independe do consumo de álcool (e até mesmo dos jogos de futebol em si), como pudemos verificar nesta semana, nas brigas entre Fanáutico e Torcida Jovem.

Em suma, o problema da violência no futebol brasileiro é estrutural. Proibir a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios é uma medida inócua, pois ela não combate o mal em sua essência e não contribui em nada para a reestruturação dos eventos esportivos locais.

Posto isto, passo a comentar o recente projeto que foi aprovado pela Assembleia Legislativa de Pernambuco.

A Alepe aprovou o consumo de bebidas alcoólicas na Arena Pernambuco durante os jogos das Copas das Confederações e do Mundo. Também foi aprovada a determinação de que não haverá o direito à meia-entrada para estudantes, idosos e professores (ao contrário do que acontece em todos os eventos esportivos e culturais no estado).

Pois bem, o curioso é que as duas medidas são totalmente convergentes aos interesses da Fifa. A entidade responsável pelo futebol mundial não investiu um centavo na construção da Arena Pernambuco, muito menos contribuiu financeiramente para as mais variadas obras de infraestrutura que estão em andamento, no Recife e Região Metropolina. Mas será ela que mais lucrará com tudo o que envolverá as marcas das  já referidas competições.

Nas duas determinações, há um interesse (da Fifa) em comum e ele é financeiro.

No caso das bebidas alcoólicas a razão é comercial. Um dos principais patrocinadores dos torneios Fifa é a AB InBev, proprietária das marcas Budweiser e Brahma.

Já a questão da meia-entrada está relacionada ao lucro com as vendas dos ingressos. Ao invés de ser obrigada a separar uma determinada quantidade de ingressos para vender a um preço mais acessível, a Fifa pode vender essa mesma quantidade de ingressos a um preço mais elevado, aumentando, assim, sua margem de faturamento no evento.

A perda do direito à meia-entrada é um absurdo do ponto de vista do Direito do Consumidor. Depois de anos para que o Código de Defesa do Consumidor passasse a ser valorizado e respeitado, RASGA-SE, mesmo que temporária e transitoriamente, uma legislação que visa a proteger o cidadão, mesmo que apenas quando este se encontra na condição de consumidor (como se quem não tivesse condições de consumir fosse um cidadão inferior, mas isso é tema para outro debate).

A liberação da venda de bebidas alcoólicas na Arena Pernambuco, por seu turno, demonstra como o Poder Público constituído no estado de Pernambuco agiu em defesa não dos cidadãos pernambucanos, mas sim dos interesses econômicos daqueles que têm a ganhar com os torneios da Fifa que se realizarão em nosso estado.

Mais do que isso, essa questão que tem um "objetivo muito claro e prazo de vigência bastante limitado" (como destacou o líder do Governo, Waldemar Borges, do PSB de Eduardo Campos), expõe a inocuidade da norma que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nos estádios pernambucanos nos demais eventos esportivos.

Essa flexibilização temporária e transitória corrobora com o ponto de vista de que as bebidas alcoólicas não são a causa da violência no futebol.

Vale lembrar que na Inglaterra, país que é exemplo inequívoco não apenas do combate à violência no futebol, mas também na reestruturação de todo o esporte nacional (que transformou um campeonato falido e sem crédito na liga de futebol mais lucrativa do mundo e uma das quatro ligas esportivas mais importantes do planeta), a venda de bebidas alcoólicas é permitida nos estádios da Premier League.

No campeonato inglês, os estádios recebem licenças especiais, que permitem a comercialização 15 minutos antes do começo do jogo, nos 15 minutos anteriores ao final do primeiro tempo e nos 15 minutos após o início do segundo.

Geoff Pearson, professor de direito da Universidade de Liverpool, autor de um livro sobre violência e torcedores ingleses, comentou sobre o tema em recente entrevista à BBC. "Não tenho dúvida de que existe pressão comercial para permitir a venda de cerveja". E ainda criticou que, em algumas competições europeias organizadas pela Uefa, a venda de bebida alcoólica seja proibida para o torcedor comum, mas permitida em áreas Vips e executivas dos estádios. “Se você paga uma certa quantia pelo seu ingresso, eles confiam que você pode beber, mas um torcedor comum, não.” 

Ou seja, mais uma vez, fica claro que o problema da violência não se limita à cerveja que o torcedor consome.

Entretanto, voltando a Pernambuco, mais especificamente para a Arena Pernambuco, o torcedor do Náutico não poderá consumir cerveja no estádio em que seu clube mandará os jogos. Mas o cidadão pernambucano verá espanhóis, uruguaios e, claro, brasileiros, consumindo uma Budweiser na mesma Arena Pernambuco nos meses de junho/julho de 2013 e 2014.

Em tempo, a Alepe tem 49 Deputados Estaduais. A medida foi aprovada por 47 (incluindo os deputados do PSB de Eduardo Campos e os do PT como o ex-presidente do Náutico André Campos). Frise-se que Daniel Coelho, do PSDB, embora tenha votado favoravelmente, defendeu que o tema não poderia ficar restrito às duas competições e o debate deveria ser mais amplo.

Apenas dois deputados foram contra. E esses dois o fizeram por se oporem intransigentemente ao consumo de bebidas alcoólicas no estádio. Estamos bem servidos...

Por fim, que sejam vendidas bebidas alcoólicas na Arena Pernambuco, sim! Mas que tal medida seja estendida a todos os eventos e praças esportivas do estado de Pernambuco. Que não fique restrita aos torneios da Fifa. Ahh! Só mais uma coisinha... Com meia-entrada, claro!