sábado, 4 de maio de 2013

A Copa do Mundo e a fantasia do “em se construindo, tudo dá”



“Em se plantando, tudo dá”, esta é uma citação atribuída a Pero Vaz de Caminha, em carta endereçada ao rei dom Manuel, ao relatar o que encontrara nas terras que acabara de “descobrir”, o que hoje chamamos de Brasil. Entretanto, ao contrário do que propagandeou o escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, ao tentar consolar seu rei pelo fato de não ter encontrado o que realmente se esperava (ouro - que só 200 anos depois seria descoberto), no início da exploração do novo território, não foi nada fácil colher os frutos do que se plantava ou cultivava. Passados pouco mais de cinco séculos da célebre carta de Pero Vaz, eis que o Brasil vive outro momento de fantasia. Agora, a ilusão não é de plantações que prosperarão “quase que infinitas”, citando o escrivão português, mas de construções. Alimentado pela felicidade de sediar o maior evento esportivo mundial, a Copa do Mundo FIFA, o Brasil vive a expectativa do “se você construir, ele virá”. Ou seja, a ideia de que megaconstruções de estádios milionários (e alguns bilionários) trarão o desenvolvimento. Do “em se plantando, tudo dá”, passamos ao “em se construindo, tudo dá”.

A noção de “se você construir, ele virá” é originária dos Estados Unidos e se fundamenta em uma premissa básica muito simples: construir estádios onde eles não existem é edificante e bom para todos. “Em qualquer cidade dos Estados Unidos, em qualquer momento, alguém está planejando construir um novo estádio esportivo excepcional. (...) Donos de times normalmente exigem que os contribuintes da cidade anfitriã banquem um estádio, com estacionamentos lucrativos. Tudo isso é então repassado ao dono da franquia, que também fica com o dinheiro que ganha vendendo ingressos”, é o que detalham o jornalista Simon Kuper e o economista Stefan Szymanski, em Soccernomics. O grifo em contribuintes é nosso e foi feito para chamar a atenção para o que acontecerá, por exemplo, com o estádio que foi construído no local do antigo Maracanã. Dinheiro público na construção de uma praça esportiva que em breve passará para as mãos de um gestor privado.

No excelente Soccernomics, Kuper e Szymanski ainda explicam que, nos Estados Unidos, há “uma pequena indústria de consultores que existem para fornecer justificativas econômicas” para as construções de estádios. O importante é convencer a população (que bancará tudo, direta ou indiretamente) da necessidade, importância e, principalmente, dos benefícios futuros das obras. E o argumento é conhecido por todos: as obras geram empregos para os operários da construção civil e os estádios empregarão pessoas, depois de prontos; torcedores virão (“se construir, ele virá”) e gastarão dinheiro; novos negócios surgirão para atender a demanda dos torcedores; a região do estádio passará por um desenvolvimento, com mais pessoas querendo morar no entorno; etc.

Esta ideia não se manteve restrita apenas aos EUA. Ela se espalhou. Primeiro para o futebol europeu. Em conseguinte, para todo o futebol mundial. Os estudos de “impactos econômicos” sempre apresentam números extraordinários, com vantagens financeiras que dificilmente ficam abaixo da casa dos bilhões (dólares, euros, reais, escolha a moeda). Mas será que essas construções realmente geram um retorno positivo para as localidades que despendem tanto esforço financeiro?

Kuper e Szymanski apresentam o trabalho do economista e ex-atleta de alto nível Rob Baade, The Sport Tax. Especializado em finanças públicas, Baade resolveu estudar com profundidade a relação entre a construção de arenas esportivas e o desenvolvimento local. O estudioso chegou a uma conclusão, que contrariava, evidentemente, os interesses econômicos daqueles que vendem a ideia de “em se construindo, tudo dá”: o investimento público em estádios não gera um bom retorno para os contribuintes. “Ao contrário do que alegam funcionários das prefeituras, este estudo descobriu que quase sempre esportes e estádios não têm qualquer impacto positivo significativo na economia da cidade”, afirmou Baade.

Evidentemente, os primeiros estudos de Baade foram sobre estádios da liga de futebol americano (NFL) e da liga de beisebol (MLB). Em 1994, ano que os EUA sediaram a Copa do Mundo, ele e Victor Matheson fizeram um estudo sobre o impacto do evento no país. Tentaram encontrar elementos que comprovassem a ideia de desenvolvimento acelerado nas cidades-sede. Adivinhem a que conclusão chegaram. Pois é, Baade e Matheson não encontraram evidências de que sediar a Copa do Mundo implicaria em desenvolvimento local.

Mas se países como Inglaterra (que esperava 250 mil turistas estrangeiros na Euro 1996 e recebeu menos de 100 mil, que gerou US$155 milhões em faturamento, nada comparado aos US$20 bilhões gastos por estrangeiros no país naquele mesmo ano) ou Alemanha (cujos 2,8 bilhões de euros gastos por visitantes na Copa do Mundo de 2006 não cobriu a despesa pública para preparar o evento e era totalmente irrelevante, quando contraposto ao 1 trilhão de euros gastos por consumidores anualmente na Alemanha) ainda podem se dar ao luxo de bancarem este tipo de “festa”, há nações em que o mau uso do dinheiro do povo podem ter consequências drásticas para a população. São os casos de Portugal, que sediou a Euro 2004, e África do Sul, sede da Copa de 2010. Este deverá ser, também e infelizmente, o caminho traçado pelo Brasil.

Euro 2004 e as dívidas para os próximos 20 anos

Estádio de Leiria, hoje sem clube que o utilize

“A Euro 2004 foi um exemplo da estratégia para o desenvolvimento para o abismo que Portugal seguiu.” A frase, impactante, é do presidente da Câmara Municipal do Porto (o equivalente a prefeito, no Brasil), Rui Rio. A sua autarquia, que teve dois estádios naquela competição – Dragão (FC Porto) e Bessa (Boavista) – tem uma dívida de 28 milhões de euros, contraídas a partir de empréstimos bancários para que pudesse realizar as obras de infraestrutura da cidade, a fim de receber os jogos do torneio europeu de seleções. Este número corresponde a 25% da dívida que o município do Porto tem com os bancos, em balanço de 2012.

A soma do rombo nos cofres públicos será sentida, pelo menos, nos próximos 20 anos. O povo português, que hoje sofre com uma enorme crise financeira e com a austeridade da Troika, sentirá no bolso o preço da ilusão do “se você construir, ele virá”. Estádios de cidades como Algarve, Coimbra, Aveiro e Leiria vivem às moscas. No caso de Leiria, o time local, União, deixou de mandar seus jogos no estádio da cidade, por não ter como cobrir as despesas da arena.

Nas quatro cidades citadas, os municípios pagam cerca de 55 mil euros por dia para manterem os estádios (entre manutenção e pagamento de empréstimos). Em Braga, onde atua o Sporting Braga e com naming right – Estádio Axa – a prefeitura paga, anualmente, 6 milhões de euros aos bancos, por empréstimos relacionados ao estádio.

Em Portugal, como se vê, construíram-se estádios e o que veio não foi o desenvolvimento, mas sim a dívida. Que será amargamente sentida por anos e anos pelo povo, claro.

Do sonho da invasão estrangeira à realidade dos elefantes brancos

Mbombela Stadium, um elefante branco sul-africano

Quando anunciada, a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul foi vendida aos sul-africanos como a salvação nacional. Criou-se a imagem de que o evento da FIFA, como os “esperados” 500 mil turistas estrangeiros, traria para o país africano o desenvolvimento. Passados três anos do evento, que recebeu cerca de 300 mil estrangeiros visitantes, cinco dos dez estádios construídos para a competição são mantidos exclusivamente com dinheiro público. A sonhada invasão estrangeira deixou apenas os elefantes brancos, pagos, logicamente, com o dinheiro do povo sul-africano.

Estádios como Moses Mabhida (Durban), Green Point (Cidade do Cabo), Nelson Mandela Bay (Port Elizabeth), Mokaba (Polokwane) e Mbombela (Nelspruit) não conseguem cobrir seus custos. Em alguns casos, estudos apontam que seria mais barato, para os cofres públicos, a demolição dos estádios do que pagar pela manutenção ao longo dos próximos anos.

O governo da África do Sul (que é o mesmo que dizer, o povo) gastou R$ 8,8 bilhões na construção de estádios e nas obras de infraestrutura. 130 mil empregos temporários, criados para o evento, deixaram de existir nos dias que se seguiram à primeira conquista da Copa do Mundo pela seleção da Espanha.

A FIFA, que não gastou um centavo sequer em construção de estádio ou demais obras e muito menos teve que pagar impostos, lucrou R$ 4,7 bilhões com a Copa do Mundo da África do Sul. Enquanto o povo paga a conta. O lucro fica com a iniciativa privada.

Aonde foram parar os investimentos privados na Copa de 2014?

Alguém se lembra da frase “uma Copa bem organizada é aquela que tem recursos prioritariamente do setor privado”? Pois é. O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, certa vez afirmou a Copa de 2014 seria fruto de investimento privado. Entretanto, 90% das obras relacionadas ao evento da FIFA têm sido bancadas com dinheiro público. Ao todo, cerca de R$ 47 bilhões do dinheiro do povo brasileiro serão gastos para que o país sedie a competição, de acordo com dados do Blog do Planalto.

Aqui no Brasil, como já era de se esperar, “consultores” e “especialistas” logo trataram de certificar que sediar a Copa do Mundo FIFA seria um grande negócio para o país. O economista-chefe de um dos principais bancos privados fez, vejam que coisa mais espantosa, um estudo sobre os “impactos econômicos” da realização do Mundial e concluiu, vejam como é ainda mais espantoso, que os gastos com o evento gerariam um impacto de 1,5% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) nacional. O Ministério do Esporte, em 2011, declarou que o impacto poderia chegar, direta e indiretamente, a R$ 185 bilhões. Sim, isso mesmo. Sei que o texto é longo, então, sintam-se à vontade de voltarem ao terceiro parágrafo. Viram? Não é sensacional como o discurso é o mesmo ao longo das décadas?

O que os “consultores”, “especialistas” e autoridades públicas não comentam é sobre os elefantes brancos que ficarão como legado da Copa de 2014. Estádios em que o dinheiro do povo foi empregado e que jamais darão retorno, assim como acontece com várias praças esportivas portuguesas e sul-africanas. Ou alguém acredita que Manaus, Cuiabá, Brasília (com o colossal Estádio Nacional) e até mesmo Natal terão como manter suas arenas? Para não falar do Castelão, em Fortaleza, cujos contratos de utilização por parte de Ceará e Fortaleza são de curtíssimo prazo, uma vez que nenhum dos clubes se mostrou disposto a arcar com os altos custos das despesas de manutenção do estádio por muitos anos.

Ainda na questão dos estádios, há o exemplo daquilo que construíram no local do antigo Maracanã. Praça esportiva que consumiu R$ 1 bilhão dos cofres públicos passará por processo de concessão, uma forma de privatizar a gestão (e o lucro) do estádio. Ou seja, assim como acontece com os estádios nos Estados Unidos, o “novo” Maracanã terá sido construído com dinheiro do povo, mas ficará sob o controle de um grupo privado, que lucrará isoladamente com isso. Onde está o interesse público nisso? Qual é a vantagem deste negócio para a população carioca e brasileira?

Ao custo final de R$ 610,037 milhões a Arena Pernambuco foi construída em Parceria Público-Privada, entre o Governo do Estado de Pernambuco e o consórcio liderado pela Construtora Norberto Odebrecht do Brasil. Projetada para integrar a denominada Cidade da Copa, a Arena Pernambuco é a primeira etapa do projeto, que, segundo o governo estadual, deverá ser concluído apenas em 2025. Entretanto, a previsão original seria de que, em 2014, além do estádio, estariam prontos parte do centro de convenções, um shopping center e um hotel com 300 quartos. Com apenas a Arena pronta, é provável que, da sonha Cidade da Copa, apenas o estádio esteja erguido em junho de 2014.

Conclusão

Há um ponto que é praticamente unânime entre os economistas especializados no tema: sediar uma Copa do Mundo não deixa o país (ou local) mais rico. O que justificaria, então, o desejo de tantas nações em sediarem um evento deste porte? Seria apenas a busca pela felicidade que gera em sua população? Será que gastar R$ 50 bilhões do dinheiro do povo brasileiro é mesmo justificável para alimentar a fantasia da felicidade de ser sede de uma Copa do Mundo? Eu penso que não.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A FIFA e a ilusão da democracia


As declarações e os conceitos de democracia das autoridades da FIFA, Jérôme Valcke e Joseph Blatter, corroboram com o fundamento da democracia estatal-capitalista, cujos alicerces se encontram na Revolução Francesa. As garantias dos direitos para que tenha a certeza d o máximo lucro possível está acima de qualquer preceito democrático. O importante é um Estado de Direito e não um Estado Democrático de Direito.



Na quarta-feira da semana passada, dia 24 de abril, duas declarações de homens de alto escalão da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) causaram indignação em muita gente. O secretário-geral da entidade máxima do futebol mundial, Jérôme Valcke, declarou, em um simpósio, que é mais fácil organizar uma Copa do Mundo em países com menos democracia. Ao passo que Joseph Blatter, presidente da FIFFA, afirmou que se sentiu feliz com o título argentino na Copa do Mundo de 1978, realizada no país portenho, por ter “reconciliado o povo com o sistema político militar”, leia-se, com a ditadura sanguinária do General Jorge Videla.

Para Valcke, “menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”, foram suas exatas palavras. No ponto de vista da FIFA e de seus interesses econômicos, um estado cujas instituições democráticas sejam mais frágeis e estejam à mercê dos ditames de uma autoridade centralizadora seria o modelo ideal de parceiro para a organização do maior evento esportivo do mundo, a Copa do Mundo de futebol.

Como regime político, de acordo com Abraham Lincoln, “a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”, este é o sentido de democracia adotado pela teoria política da civilização ocidental, em que os governados (povo) têm participação no governo. Montesquieu, em sua clássica obra Do Espírito das Leis, pontifica: “Quando, numa república, o povo como um todo possui o poder soberano, trata-se de uma Democracia. [...] O povo, na democracia, é, sob alguns aspectos, o monarca; sob outros, o súdito.”

Este é o conceito ocidental de democracia. Ou a ilusão (de um ideal) da democracia. Na prática, entretanto, como a história é profícua em nos ensinar, as grandes instituições – sejam elas estatais, empresariais ou até mesmo religiosas – preferem atuar em desconformidade com o controle do poder da soberania popular. Para os pequenos e seletos grupos de poder, ter que se submeter ao “povo, pelo povo, pra o povo” não é interessante, uma vez que podem interferir diretamente seus anseios político-econômicos.

Em regra, o público (leia-se o povo, de onde deveria emanar o poder em uma democracia) fica excluído das grandes discussões, sem sequer conhecer de que modo se operam as transações mais preponderantes para a sociedade. Em O lucro ou as pessoas? – neoliberalismo e ordem global, o eminente professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Noam Chomsky, traz uma reveloradora declaração do já falecido cientista político Samuel Huntington, que escrevera em American Politics: “Os arquitetos do poder nos Estados Unidos devem criar uma força que possa ser sentida, mas não vista. O poder se mantém forte quando permanece à sombra.”

Chomsky descreve essa afirmação como a “criação de uma falsa impressão, para iludir o público e excluí-lo por completo.” E é este o modelo da democracia estatal-capitalista, cujos alicerces se encontram nas revoluções burguesas do Séc. XVIII. Foi levado por esta lógica que Valcke deixou escapar “algo que é maluco”, como ele mesmo definiu e que, posteriormente, tratou de esclarecer que não passara de um mal entendido.

Para compreender melhor esta ilusão da democracia, é preciso voltar no tempo. Mais precisamente ao ano de 1789. Em 14 de julho daquele ano, “uma revolução social de massa” (Hobsbawm) tomou de assalto um dos maiores símbolos do absolutismo francês, a Bastilha. Trata-se, claro, da Revolução Francesa. Um de seus legados se tornou um marco para todos os países, foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Eric Hobsbawm a definiu como “um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres”, ou seja, a garantia da liberdade do indivíduo perante o Estado, a limitação e o controle do poder do Estado.

Entretanto, embora reconhecendo o fundamental valor da Revolução Francesa e, principalmente, o marco significativo da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, é imprescindível se analisar esta passagem da história da humanidade com um olhar crítico. É indiscutível que, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fundou-se uma nova perspectiva, base do Estado moderno, apoiada em uma relação diferente entre o Estado e o cidadão, na qual passou a haver um limite aos abusos de poder do Estado, através de novas formas de controle do poder estatal.

Contudo, chegamos a algumas indagações:

A quem serviu esta nova perspectiva? A quais interesses respondia essa nova base de Estado, essa diferente relação entre o Estado e o cidadão? Quem se beneficiou desta “radical inversão de perspectiva” (Bobbio)?

Foi o povo, a massa social que tomou a Bastilha, o grande beneficiado desta mudança histórica? O povo tomou a bastilha. A burguesia chegou ao poder. O próprio Hobsbawm afirma que a Declaração “não era um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária”. Pregar a liberdade, não significava, obrigatoriamente, a defesa da democracia e de uma sociedade verdadeiramente igualitária.

Os burgueses, ou melhor, os liberais clássicos, não estavam preocupados com a democracia ou com uma sociedade igualitária. O que os motivava era a fundação de um Estado que permitisse a sua ascensão e afirmação social.

É sob esta perspectiva que Valcke prefere a Rússia de Putin a um país organizado, disciplinado e ético como a Alemanha. O que importa para a FIFA não é a democracia no país-sede de sua Copa do Mundo, mas sim as garantias dos direitos (por isso Estado de Direito) para que tenha a certeza de que terá o máximo de lucro possível.

É também por esta razão que o presidente da entidade, o suíço Blatter, ficou feliz com a vitória da Argentina do ditador Videla, que tinha, na Copa do Mundo de 1978, sempre ao seu lado o ex-Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, um dos principais articuladores das ditaduras militares na América Latina (conforme revelou o WikiLeaks no denominado Kissinger Cables).

Indignado, o povo não se apercebe (e sequer tem capacidade de poder perceber) que se encontra imerso na ilusão da democracia. Em breve, escreverei sobre a Copa do Mundo de 2014 e a ilusão do “em se construindo tudo nasce”.

Final alemã na Liga dos Campeões e a vitória do futebol


No dia 25 de maio, o simbólico estádio de Wembley será palco da final alemã da Liga dos Campeões da Europa. Independendemente de qual clube se sagrar campeão europeu, Bayern de Munique ou Borussia Dortmund, a decisão representa a vitória do futebol e do respeito ao quase utópico espírito esportivo.








No dia 14 de abril, ou seja, no fim de semana seguinte à definição das semifinais da Liga dos Campeões, publiquei aqui neste espaço o texto Semifinais da Liga dos Campeões: dois países, dois modelos de gestão do futebol, em que analisava os dois modelos antagônicos da gestão do futebol adotados na Alemanha e na Espanha. Chamei a atenção para as negociações dos direitos de transmissão televisiva - coletivo na Alemanha, individual na Espanha – e a consequência para a competitividade dos torneios internos. Também falei sobre o paradigma do fair-play financeiro imposto pelas regras da Bundesliga (regulamentadas em um documento de 200 páginas) aos clubes alemães, em contrapartida ao descontrole financeiros dos endividados e, ao meu ver, irresponsáveis Real Madrid e Barcelona. No dia 23 de abril, dia da primeira partida das semifinais, escrevi no Diario de Pernambuco, onde sou estagiário, um texto cujo conteúdo resumia o que havia publicado aqui no blog.

Pois bem, Bayern de Munique e Borussia Dortmund atropelaram a dupla de ferro espanhola Barcelona e Real Madrid. Os bávaros aplicaram duas goleadas: 4 a 0 na partida de ida, na Allianz Arena; e 3 a 0 em pleno Camp Nou, fazendo cair, definitivamente, a imagem de melhor time do mundo da atual geração catalã. O Dortmund também goleou na partida de ida, em casa, fazendo 4 a 1 com um show de Lewandowski. Na volta, no Bernabéu, os alemães perderam por 2 a 0, com dois gols marcados já na segunda metade do segundo tempo, muito mais pela pressão momentânea do que pela construção coletiva do futebol merengue, que não existiu em toda a eliminatória.

Esta será a quarta vez que a final do principal torneio interclubes do mundo será decidida por dois clubes de um mesmo país. Porém, ao contrário da final espanhola de 2000 (em que o Real Madrid bateu o Valência por 3 a 0), da final italiana de 2003 (vencida, nos pênaltis, pelo Milan sobre a Juventus) e até mesmo da final inglesa de 2007/08 (na qual o Manchester United se sagrou campeão em vitória, nos pênaltis, contra o Chelsea - Anelka e o pênalti de US$ 170 milhões), a decisão de 2013 (como publicamos no dia 24 de abril - O ponto de viragem do futebol alemão e uma coincidência histórica – e no último domingo no Diario de Pernambuco, com colaboração do editor do SuperEsportes Marcerl Tito) é ao mesmo tempo reflexo da reestruturação racional de todo o futebol germânico e um prêmio ao trabalho fundamental realizado na transformação de uma visão do futebol, reconhecendo a necessidade de reformular todo um modelo de treinamentos na formação de jovens jogadores.

Mais do que a terceira final entre clubes do mesmo país, no dia 25 de maio, o estádio de Wembley, em Londres, será palco da celebração da vitória do futebol. Do esporte em sua essência. Da busca pela competitividade em respeito ao tão proclamado, porém pouco respeitado, espírito esportivo. Seja o Bayern de Munique campeão europeu pela quinta vez na história ou o Borussia Dortmund levante sua segunda “orelhuda”, os verdadeiros campeões seremos todos nós, apaixonados pelo futebol.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O ponto de viragem do futebol alemão e uma coincidência histórica


Em 1974, os timaços de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach formavam a base da seleção alemã que foi campeã do mundo depois de 20 anos de fila. Sem conquistar um Mundial desde 1990, a Alemanha chegará ao Brasil em 2014 com uma base fortíssima, formada por outros dois timaços: Bayern de Munique e Borussia Dortmund.



Depois da conquista da UEFA Euro 1996, a seleção alemã passou por um período de decadência. Racionais como são, os alemães não se iludiram com a ida à final da Copa do Mundo FIFA 2002, perdida para o Brasil. Depois da Copa do Mundo de 2006, o futebol alemão se viu diante de um ponto de viragem. Ou mudava estruturalmente e essencialmente seu modelo de treinamentos na formação de atletas ou estaria fadado ao insucesso nas competições internacionais com a seleção alemã. Foi então que a Federação contratou o técnico Joachim Löw e deu a ele um contrato de 10 anos para renovar o futebol, investindo na formação de jovens atletas. Em uma década, os clubes da Bundesliga gastaram cerca de R$ 1,8 bilhão (sim, isso mesmo, 1 bilhão e 800 milhões de reais!) em suas categorias de base.

Tendo disputado a Copa do Mundo FIFA 2010 sem a pressão do favoritismo e reconhecendo que não tinha a obrigação de sair da África do Sul como campeã, a Alemanha aproveitou a competição para dar experiência às jovens revelações, que vêm colecionando títulos europeus nas categorias sub-17, sub-19 e sub-21. Um terço da equipe titular alemã em 2010 tinha média de 23 anos de idade.

Atualmente, Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a base da seleção alemã. Dos 23 jogadores que compõem o elenco principal, oito são do Bayern e seis do Dortmund, sendo quatro titulares de cada clube. No total, 18 atletas atuam no futebol alemão. Reflexo da força da Bundesliga e da renovação do futebol germânico.

As novas gerações de Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a prova disso. Com seu estilo de futebol moderno e espetacular, bem diferente do rigor tático e vigor físico que eram as principais características alemãs. Nas semifinais da Liga dos Campeões, os dois timaços germânicos atropelaram a badalada dupla de ferro espanhola – Barcelona e Real Madrid. Os bávaros enfiaram 4x0 nos catalães. Enquanto os aurinegros fizeram 4x1 nos madrilenhos.

A expectativa, portanto, é de que a dupla Bayern de Munique e Borussia Dortmund possa repetir o feito de uma outra dupla bem sucedida na história da seleção nacional alemã: Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach.

1974

Forças absolutas da Bundesliga nos anos 1970, as gerações de ouro de Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach serviram de base para a seleção que saiu da fila de 20 anos e conquistou a Copa do Mundo FIFA 1974. Eram times formados por nomes históricos, como Sepp Maier, Paul Breitner, Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uli Hoeness (Bayern) e Berti Vogts, Herbert Wimmer, Jupp Heynckes, Rainer Bonhof (M’gladbach). O meia Günther Netzer, que atuava no Real Madrid em 1974, fora formado no M’gladbach, onde atuou de 1963 a 1973.

Com a mesma base, o Bayern conquistou 4 campeonatos nacionais, 3 europeus e 1 mundial ao longo daquela década, enquanto o M’gladbach ficou com 5 alemães, 2 Copas da UEFA e 1 vice-europeu.

2014

Manuel Neuer, Philipp Lahm, Holger Badstuber, Jérôme Boateng, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos, Mario Gomez, Thomas Müller, Mario Götze, Roman Weidenfeller, Mats Hummels, Marcel Schmelzer, Ilkay Gündoğan e Marco Reus. São as principais estrelas de Bayern de Munique e Borussia Dortmund. Anotem esses nomes. Eles poderão levantar a Taça FIFA em pleno Maracanã no dia 13 de julho de 2014.

domingo, 14 de abril de 2013

Semifinais da Liga dos Campeões: dois países, dois modelos de gestão do futebol



Bayern de Munique x Barcelona e Borussia Dortmund x Real Madrid. Quis o sorteio da UEFA Champions League que espanhóis e alemães se enfrentassem nas semifinais do maior torneio interclubes do mundo, proporcionando a possibilidade de uma final totalmente alemã ou espanhola. Mais do simples confrontos entre clubes de dois países, as semifinais da Liga dos Campeões 2012/13 coloca frente a frente dois modelos bastante distintos na gestão do futebol. Desde as negociações dos direitos de transmissão televisiva – negociação coletiva Vs. negociação individual – ao controle financeiro dos clubes e das Ligas.

Bayern de Munique e Borussia Dortmund representam a Alemanha, país em que o futebol é controlado e racional, visando a garantir o máximo de competitividade possível. Do lado oposto, estão Barcelona e Real Madrid, representando a Espanha, sem organização hierárquica, com dois gigantes vorazes e egoístas, bipolarizando as disputas internas.

Certamente, uma final entre Barcelona x Real Madrid seria como a realização de um sonho para a UEFA e todos os seus patrocinadores, bem como para as redes de televisão que pagam a peso de ouro pelas transmissões da Champions League, além, claro da imensa maioria dos fãs de futebol. Afinal, Real Madrid e Barcelona são, respectivamente, os dois clubes de futebol que mais faturam em todo o mundo. Para não falar das constelações que compõem os elencos de ambos os times. Do ponto de vista meramente passional, da ideia do espetáculo pelo espetáculo, ver os dois gigantes espanhóis, cuja rivalidade vai muito além das quatro linhas, em uma final de Liga dos Campeões seria realmente fantástico e histórico.

Porém, analisando-se a representação simbólica de uma decisão entre dois clubes monopolizadores, de uma Liga injusta e desigual em sua essência, surge o questionamento: o que seria melhor para o futebol? Uma final espanhola significaria a vitória do negócio do futebol sem controle de gastos e das dívidas astronômicas em nome do pretenso espetáculo? Ou uma final alemã seria o símbolo de que é possível ser competitivo com os pés no chão, controlando os gastos, estando em uma Liga financeiramente equilibrada?

Negociações individuais Vs. Negociações coletivas

Na Espanha, La Liga possui modelo de negociações individuais, em que cada clube negocia a venda dos seus direitos televisivos diretamente com a rede de televisão. Este modelo tem gerado uma profunda desigualdade e acarretado em uma enorme perda de competitividade do Campeonato Espanhol.

Real Madrid e Barcelona, auferem 144 milhões de euros e 133 milhões de euros, respectivamente, pelos seus contratos com a empresa Mediapro. Estes dois clubes arrecadam 47% do total das receitas televisivas de La Liga. O terceiro no ranking é o Valência, que recebe 44 milhões de euros, ou seja, três vezes menos do que a dupla de ferro. Logo em seguida vem o Atlético de Madrid, com 42 milhões de euros. Clubes tradicionais como Athletic Bilbao e Sevilha recebem cerca de 20 milhões de euros, isto significa sete vezes menos que os dois principais clubes do país. Estes contratos têm validade até 2015.

Não por acaso, nos últimos 15 anos, apenas em três ocasiões os campeões não foram Barcelona ou Real Madrid. Isso aconteceu na temporada 1999/2000 com o Deportivo La Coruña e nas épocas 2001/02 e 2003/04 com o Valência.

Nos últimos nove campeonatos (contando que o Barcelona será campeão este ano), o título ficou entre Barcelona (seis vezes) e Real Madrid (três vezes). Nesse mesmo período, apenas em uma ocasião a dupla de ferro não ficou nas duas primeiras colocações. Em 2007/08, o Villareal foi o vice-campeão (Real Madrid campeão e o Barcelona ficou em 3º). Por sinal, o Villareal, último time a se intrometer na bipolarização, foi rebaixado para a segunda divisão espanhola na temporada passada, 2011/12.

Na Alemanha, a Bundesliga, composta por 36 clubes (18 da primeira divisão e 18 da segundona), negocia os direitos de transmissão coletivamente e divide 75% dos valores entre os clubes da elite e 25% é repartido entre os participantes da segunda divisão. O último contrato assinado em 2010 com a operadora Sky, rendeu 1,5 bilhão de euros por temporada para a Bundesliga. Ou seja, 1,125 bilhão de euros é dividido pelos clubes da primeira divisão, enquanto 375 milhões de euros é repassado para os participantes da segunda divisão alemã.

Nos últimos dez anos (contando a temporada 2012/13), a Bundesliga teve cinco campeões diferentes: Bayern de Munique (5x), Borussia Dortmund (2x), Wolfsburg, Sttuttgart e Werder Bremen. Nesse mesmo período, o Schalke 04 foi vice-campeão em três ocasiões, o Werder Bremen em duas e o Leverkusen uma vez.

Não por acaso, enquanto os direitos de transmissão televisiva representam 39% do faturamento do Real Madrid e 37% do Barcelona, não passam de 32% e 22% do faturamento de Borussia Dortmund e Bayern de Munique, respectivamente.

Dívidas astronômicas Vs. Fair-play financeiro

O futebol europeu, de modo geral, reflete a crise que assola o Velho Continente. Vários clubes, das principais ligas, têm dívidas astronômicas. Com exceção de um país. A Alemanha. Refletindo a economia da nação mais estável da Zona Euro, o futebol alemão é o exemplo inequívoco de um esporte financeiramente saudável. Enquanto na Inglaterra, os clubes somam uma dívida de cerca de 4 bilhões de Euros. Na Espanha, são quase 4,2 bilhões de Euros. Por outro lado, na Alemanha, dos 36 clubes da Bundesliga, 33 têm lucros.

De acordo com os estudos da Deloitte Football Money League, nos últimos quatro anos, Real Madrid e Barcelona foram os dois clubes que mais faturaram no futebol mundial. Os Merengues lideram a lista há praticamente uma década. Na temporada 2011/12, o clube da capital espanhola bateu um recorde histórico: foi o primeiro a faturar acima dos 500 milhões de Euros. Totalizando 512,6 milhões de Euros. Seguindo os passos do grande rival, o Barcelona auferiu 483 milhões de Euros em 2011/12.

Mas se madrilenhos e catalães batem recordes de faturamento ano após ano, as dívidas de ambos também crescem de forma espantosa. O Real Madrid deve nada menos que 660 milhões de Euros (algo como R$ 1,5 bilhão). O Barcelona não fica muito atrás, com sua dívida de 549 milhões de Euros, o que acarreta em um patrimônio negativo de € 59 milhões. Falando do descontrole financeiro do futebol espanhol, o Governo da Espanha declarou, há um anos, que seus clubes devem € 752 milhões de impostos.

200 páginas. Esse é o tamanho do documento que regulamenta como o futebol deve ser administrado pelos clubes da Bundesliga. Implementadas há cerca de uma década, as regras impõem um rigoroso controle financeiro às entidades esportivas que queiram participar da primeira e segunda divisões do Campeonato Alemão. As normas, resumidamente, impedem que os clubes ajam como adolescentes descontrolados com o cartão de crédito roubado dos pais. Na Alemanha, só se pode gastar aquilo que se pode pagar. Seria elementar e óbvio, não fosse uma exceção em todo o mundo do futebol.

Os clubes alemães são obrigados a abrirem suas contas para os fiscais da Bundesliga e têm que provar liquidez financeira suficiente para terminarem a temporada com saldo positivo. Caso contrário, o clube é punido. As sanções vão desde a perda de pontos (como ocorreu, recentemente, com o Arminia) ao impedimento de participar da Bundesliga.

Além disso, na Alemanha não há clubes que pertençam a sheiks árabes, magnatas russos ou norte-americanos bilionários. Todos os clubes pertencem aos torcedores (sócios), que detêm 51% das ações. As exceções são os históricos Wolfsburg (Volkswagen) e Bayer Leverkusen (Bayer), mas que são parte integradas às suas respectivas cidades.

Não é por acaso, portanto, que o Bayern de Munique apresente lucros por 20 anos consecutivos. Os bávaros têm o quarto maior faturamento do mundo, com € 368,4 milhões em 2011/12. Nesse mesmo período, o lucro líquido do maior clube alemão foi de espantosos € 332,2 milhões (R$ 877 milhões). Isso em uma temporada que o Bayern passou totalmente em branco, sem conquistar qualquer título, sendo vice-campeão europeu, alemão e da Copa da Alemanha.

Mais modesto, se comparado ao gigante bávaro, o Borussia Dortmund também registrou um bom lucro líquido na temporada 2011/12. Com um faturamento recorde de 215,2 milhões de Euros, o Dortmund teve um lucro de € 39,3 milhões (livre de impostos). A dívida reduziu de € 56,1 milhões para € 15,5 milhões, representando uma redução de € 40,6 milhões em um ano.

Recentemente, os aurinegros anunciaram lucro de € 17, 5 milhões no primeiro semestre do ano fiscal 2012/13. O resultado é 22 vezes maior do que o apresentado no mesmo período da temporada passada. É de se imaginar que se bata novamente o recorde, uma vez que a chegada à semifinal da Liga dos Campeões representa um faturamento enorme.

Resumindo, enquanto Real Madrid e Barcelona têm prejuízos ano após ano e acumulam dívidas de € 660 milhões e € 549 milhões, o Bayern de Munique tem lucros sucessivos há 20 anos e o Borussia Dortmund tem batido seus recordes de lucros, reduzindo sua dívida a um patamar administrável de apenas € 15,5 milhões, vislumbrando uma redução ainda maior, já que a temporada 2012/13 já se apresenta como lucrativa.

Categorias de base – modelo a ser seguido

Apesar dos prejuízos e das dívidas, o Barcelona é um modelo no que diz respeito às categorias de base. Inspirada e influenciada pelos holandeses Rinus Michels (criador do “carrossel holandês”) e Johan Cruyff (gênio da “Laranja Mecânica” dos anos 1970), La Masia é referência na formação de jovens craques. A base da seleção espanhola, campeã do mundo e bicampeã europeia saiu de lá: Xavi, Iniesta, Puyol, Piqué e Fàbregas. Para não falar do melhor jogador mundo, o argentino Lionel Messi, que chegou ao clube catalão com 13 anos de idade. O Real Madrid, por seu turno, dentre os titulares apenas Iker Casillas foi formado em La Fabrica. Casillas, por sinal, tem ficado no banco, após desentendimentos com o técnico José Mourinho.

Depois da Copa do Mundo de 2006, o futebol alemão se viu diante de um ponto de viragem. Ou mudava seu modelo de treinamentos na formação de atletas ou estaria fadado ao insucesso nas competições internacionais com a seleção alemã. Foi então que a Federação contratou o técnico Joachim Löw e deu a ele um contrato de 10 anos para renovar o futebol, investindo na formação de jovens atletas.

Na Copa do Mundo de 2010, a Federação alemã não viu problemas em reconhecer que sua seleção não chegava à competição como favorita e não tinha a obrigação de sair campeã. O objetivo era outro: dar experiência às revelações. O time base alemão tinha um terço de jogadores com média de 23 anos de idade.

Atualmente, Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a base da seleção alemã. Dos 23 jogadores, oito são do Bayern e cinco do Dortmund, sendo quatro titulares de cada clube. No total, 18 jogadores atuam no futebol alemão. Reflexo da força da Bundesliga e da renovação do futebol germânico.

Em recente entrevista ao canal ESPN Brasil, Paul Breitner, ídolo e “embaixador” do Bayern de Munique, afirma que o Barcelona serviu de inspiração para o clube bávaro e também para o futebol alemão. Lembrando, sempre, que esse trabalho deve se iniciar com jovens adolescentes, sendo projetado para gerar frutos a médio prazo. “Você tem que compreender que para mudar sua forma de jogar futebol, são precisos no mínimo seis ou oito anos de trabalho. Não adianta tentar mudar jogadores que tenham 17, 18, 19 anos de idade. Você precisa começar a trabalhar com eles aos 12, 13 anos de idade”, analisou.

Guiado pelo modelo catalão, o futebol alemão, com a racionalidade que é característica à sua cultura, conseguiu se transformar. As novas gerações de Bayern de Munique e Borussia Dortmund são a prova disso. Com seu estilo de futebol moderno e espetacular, bem diferente do rigor tático e vigor físico tradicionais alemães.

Conclusão

As semifinais da Liga dos Campeões não colocarão frente a frente apenas Bayern x Barcelona ou Dortmund x Real Madrid. Estará em disputa o modelo de se pensar e gerir o futebol em sua totalidade. De um lado, o modelo alemão de controle financeiro e primazia à competitividade através de divisão equânime dos recursos; do outro, o modelo espanhol de descontrole, prejuízos financeiros e desigualdade nas competições internas.

E aí, qual é o modelo que o futebol merece ter? O modelo da competitividade e do fair-play financeiro? Ou o modelo desigual e insano em sua essência?

Eu assumo minha posição: torcerei por uma final alemã. Pelo bem do futebol, que Bayern de Munique x Borussia Dortmund pisem o gramado de Wembley no dia 25 de maio e mostrem ao mundo que existe uma alternativa para além dos gastos exacerbados e da irresponsabilidade na gestão desportiva.

“Nós contratamos jogadores com o nosso dinheiro”, Paul Breitner, ídolo e ‘embaixador’ do Bayern de Munique, no programa Bola da Vez (ESPN Brasil), explicando que seu clube não precisa de empréstimos em bancos ou de investidores para contratar reforços.




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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Pênalti é loteria? A economia mostra que não


Há um momento no futebol que deve ser unânime entre torcedores, repórteres esportivos, treinadores e jogadores como o mais tenso de todos: a cobrança de pênalti. Para muitos, o pênalti é uma verdadeira loteria. Para outros, uma grande injustiça. Mas se tem uma situação no jogo de futebol, dentro das quatro linhas, em que a economia melhor poder ajudar a explicar, ela é a cobrança de pênalti. E mais: os pênaltis podem ajudar a compreendermos a teoria dos jogos. Entenda como PSV, Holanda e Alemanha já se deram bem recorrendo a essa estratégia, e como Anelka deu um prejuízo de US$ 170 milhões ao Chelsea por não seguir as orientações recebidas.

A teoria dos jogos é utilizada para analisar como as estratégias de diferentes agentes interagem em determinada situação. Os norte-americanos usaram esta teoria de forma exaustiva durante a Guerra Fria. O governo dos EUA recorria com freqüência à teoria dos jogos para planejar suas interações com a União Soviética e tentar antecipar os passos dos soviéticos. Talvez a crise dos mísseis em Cuba seja um dos casos mais emblemáticos do uso da teoria dos jogos por parte do governo norte-americano.

Mas o que é, de forma simplificada, a teoria dos jogos? E como a cobrança de pênalti ajudar a compreender essa teoria? É que a teoria dos jogos estuda situações de interação exatamente como a de um cobrador de pênalti frente a frente com um goleiro: o que eu devo fazer depende do que você faz, e o que você deve fazer depende do que eu faço. Resumindo: para onde o batedor deve chutar a bola e para onde o goleiro deve pular? A estratégia de cada um dependerá da ação um do outro.

Renomados economistas, como, por exemplo, Steve Levitt, autor do livro Freakonomics, já estudaram e publicaram artigos sobre as cobranças das grandes penalidades. E de que forma os economistas podem ajudar cobradores de pênaltis e goleiros no momento da mais alta tensão no esporte mais popular do mundo?

Os teóricos dos jogos têm condições de criar estratégias para os jogadores de futebol. Engana-se quem pensa que esse é um tema restrito somente à teoria e que dificilmente se verifica na prática. Clubes e seleções já recorreram aos dados de economistas e estudiosos para traçarem suas estratégias em casos de decisões por pênaltis.

Com o tempo, cobradores de pênaltis e goleiros constroem um histórico de suas estratégias. Basta um olhar mais atento e uma dedicação a analisar os jogos de seus adversários em partidas decisivas para se levantar um banco de dados com os hábitos dos principais cobradores de pênaltis e dos goleiros oponentes. Foi o que Steve Levitt e seus colegas economistas fizeram. Eles perceberam que determinado goleiro sempre pulava para o lado esquerdo ou que um certo cobrador costumava bater sempre no canto direito, rente ao chão ou a meia altura. E por aí vai.

Em 1988, o PSV Eindhoven decidiu a Copa dos Campeões da Europa com o Benfica, na cidade alemã de Stuttgart. Antes da grande decisão, o goleiro do PSV, Hans van Breukelen, telefonou para o técnico Jan Reker, detentor de um banco de dados sobre cobranças de pênaltis. Todas as cinco primeiras cobranças do Benfica foram convertidas. Van Breukelen defendeu a sexta, cobrada por Veloso. O PSV foi campeão europeu.

Cético, você poderá dizer que tudo não passou de mera coincidência, afinal de contas cinco cobranças do Benfica foram bem sucedidas e apenas a sexta é que foi defendida pelo goleiro do PSV. Tudo bem. Pode ter sido apenas coincidência. Acontece que no mês seguinte, a Holanda batia a União Soviética por 2 a 0, na final da Euro 1988. Van Breukelen cometeu um pênalti. Se os soviéticos diminuíssem o jogo poderia mudar de figura. O goleiro, mais uma vez, recorreu ao banco de dados de Reken e... Defendeu o pênalti cobrado por Igor Belanov. Esse é, até hoje, o único grande título da seleção holandesa.

Em 2006, Alemanha e Argentina se enfrentaram nas quartas de final da Copa sediada na Alemanha. A decisão da vaga na semifinal terminou indo para os pênaltis. Os alemães tinham uma base de dados de 13 mil chutes. Sim, 13 mil! O goleiro Jens Lehmann foi para o seu gol com uma cola guardada no meião. Na cola, uma lista com a forma como sete jogadores argentinos cobravam seus pênaltis. Dos sete, apenas dois foram cobrar. Um deles, Ayala, cumpriu à risca o que estava anotado na cola de Lehmann: após esperar muito tempo, deu uma longa corrida e chutou para a direita. Lehmann defendeu.

O último argentino a cobrar foi Cambiasso. A decisão estava 4 a 2 para a Alemanha. Lehmann consultou sua cola. O papel amassado, suado e escrito a lápis impediu que o goleiro compreendesse o que estava na lista. Cambiasso percebeu a movimentação de Lehmann e que ele consultava algo. Aí entra a teoria dos jogos e a pressão. Certamente Cambiasso pensou – “o que ele sabe? Será que ele sabe onde vou bater?”. Intimidado, Cambiasso teve sua cobrança defendida por Lehmann e a Alemanha avançou para a semifinal da Copa.

Anelka e o pênalti de US$ 170 milhões

Eis que chegamos ao francês Nicolas Anelka e à decisão por pênaltis da Liga dos Campeões da Europa de 2008, que envolveu os ingleses Manchester United e Chelsea. O treinador dos Blues era o israelense Avram Grant, amigo de um professor de uma universidade israelense, que, por sua vez, era muito amigo do economista basco Ignacio Palacios-Huerta.

Ignacio começou a estudar cobranças de pênaltis em 1995, ainda estudante da Universidade de Chigado e publicou um estudo sobre o tema em 2003. O amigo de Avram Grant colocou os dois em contato, pensando que Ignacio poderia ajudar o Chelsea de Grant com seu banco de dados.

O economista basco enviou para Grant um relatório e transcrevo os quatro comentários que ele fez sobre o Manchester United e as cobranças de pênaltis.

1 - Van der Sar tendia a saltar para o “lado natural” do cobrador mais vezes do que a maioria dos goleiros. Ou seja: diante de um cobrador destro, ele saltaria para a sua direita; diante de um canhoto, saltaria para a sua esquerda. Portanto, os jogadores do Chelsea deveriam cobrar para o “lado não natural”.

2 - A imensa maioria dos pênaltis defendidos por Van der Sar são chutados a meia-altura. Pênaltis contra ele deveriam ser cobrados junto ao solo ou altos.

3 - Ronaldo com freqüência dá uma parada na corrida para a bola. Se ele parar, provavelmente (85% de chances) chutará do lado direito do goleiro. E enfatizou: Ronaldo pode mudar de ideia no último instante. O goleiro não podia se antecipar, caso o fizesse, ele sempre marcava.

4 - O time que vencer o sorteio antes da cobrança deve escolher cobrar primeiro. Mas isso é banal: sempre se deve cobrar primeiro. Times que cobram primeiro vencem 60% das vezes, presumivelmente porque há muita pressão sobre o segundo a cobrar, que sempre precisa marcar para salvar o jogo.

O Manchester United venceu o sorteio. O capitão dos Red Devils, Rio Ferdinand, escolheu, logicamente, que seu time iniciaria as cobranças.

Vejam as cobraças no vídeo abaixo e eu já volto com alguns comentários.



Viram como Ballack e Belletti seguiram as orientações de Ignacio? O alemão cobrou alto à esquerda de Van der Sar, enquanto o brasileiro mandou a bola junto ao chão, também à esquerda do goleiro holandês.

E então foi a vez de Cristiano Ronaldo partir para a bola. E o que faz o português? Exatamente aquilo que Ignacio previra: dá uma parada na corrida e manda a bola no lado direito do goleiro. O que fez Petr Cech? Seguiu o conselho do economista basco: ele não deveria se antecipar e não se antecipou. Cech esperou a cobrança, que veio no seu lado direito e defendeu. Voltem ao vídeo. Revejam o lance. Pois é.

Na sequência, mais quatro cobranças do Chelsea, todas seguindo as orientações de Ignacio. Inclusive John Terry com sua célebre escorregada na grama molhada. Van der Sar saltou para o lado direito. Terry mandou alto, no lado esquerdo. Mas escorregou. A bola bateu na trave e saiu.

Chega a vez da sétima cobrança do Chelsea. O francês Nicolas Anelka vai para a bola. Se ele perde, o United é campeão. Naquele momento, Van der Sar já havia percebido que o Chelsea adotara uma estratégia para a cobrança de pênaltis. Provavelmente, ele pensou que os adversários optaram bater sempre para o seu lado esquerdo. O holandês chega a apontar para o lado esquerdo, como quem diz a Anelka “eu sei que você vai bater aqui”.

E é nesse momento que entra a teoria dos jogos. Anelka sabia que Van der Sar sabia que Anelka sabia que Van der Sar costumava saltar para a direita quando estava diante de jogadores destros. Imaginem essa tensão no momento em que você tem, em seus pés, a chance de manter seu time na luta pelo principal título de clubes do futebol mundial ou de decretar sua derrota.

Ignacio havia recomendado que jogadores destros cobrassem para o lado esquerdo de Van der Sar. Mas Anelka ficou intimidado com a postura de Van der Sar. O francês, então, resolveu não seguir as orientações do economista basco. O que ele faz? Muda o lado. Decide bater para o canto direito do goleiro holandês, aquele em que ele tinha maior facilidade para defender pênaltis cobrados por destros.

A estratégia de Anelka até poderia ter dado certo. Mas não deu. Qual foi o motivo? Voltem ao vídeo. Viram? O francês bateu a meia-altura. Ignacio havia escrito em seu relatório: “a imensa maioria dos pênaltis defendidos por Van der Sar são chutados a meia-altura. Pênaltis contra ele deveriam ser cobrados junto ao solo ou altos.” Anelka cobrou a meia-altura. Van der Sar defendeu, como sempre costumava fazer em bolas a meia-altura. E o Chelsea deixou de faturar, segundo analistas, cerca de US$ 170 milhões.

Os jogadores de futebol seguem uma tendência quando vão cobrar pênaltis. Todos têm um lado preferencial. Assim como os goleiros têm um lado para o qual costumam saltar mais ou terem maior facilidade para defender. Os pênaltis, contudo, são aleatórios. E é essa aleatoriedade na cobrança de pênaltis que torna esse momento tão tenso e emotivo. Não há cálculos, nem banco de dados, que possam prever para que lado vai cobrar um bom profissional, que saiba executar com precisão a sua cobrança.

Que o diga Franck Ribéry. O francês do Bayern Munique é um dos poucos jogadores que, ao partir para a bola, não tem definido para que lado baterá. Ribéry é um profissional exemplar e também o elemento capaz de quebrar toda a teoria dos jogos.

Porém, com a teoria dos jogos, e mesmo com a aleatoriedade e principalmente por conta dos bons profissionais, torna-se simplório afirmar que pênalti é loteria e injusto dizer que os pênaltis são uma injustiça.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Júlio César seguirá os passos de Van der Sar?


Agosto de 2001. Aos 31 anos de idade, o goleiro holandês Edwin van der Sar se transfere da Juventus da Itália para o Fulham, pequeno clube da zona Oeste da cidade de Londres, que tinha acabado de volta à Premier League. Depois de dois anos frustrantes no maior campeão italiano, Van der Sar, que havia conquistado tudo o que tinha para conquistar com o Ajax, mudou-se para a capital inglesa em busca de um novo rumo em sua carreira. Para muitos, porém, a crise na Juventus e a opção por jogar em um time pequeno, que não disputava a competição de elite em seu país há 33 anos, era um fim de carreira melacólico.

Agosto de 2012. Aos 32 anos, o goleiro brasileiro Júlio César se transfere da Inter de Milão, Itália, para o Queens Park Rangers, um pequeno clube da zona Oeste da cidade de Londres. O QPR havia retornado à Premier League no ano anterior e não caiu por pouco, ficando na 17ª posição na temporada 2011/12. Fora da Seleção Brasileira desde as quartas de final da Copa do Mundo de 2010, Júlio César saiu da Inter de Milão (onde havia ganho tudo) de forma melancólica, praticamente dispensado após uma temporada muito fraca, em que foi criticado por dirigentes e pela torcida. Para Júlio César a opção por Londres era a possibilidade de aprender inglês e viver em uma das melhores cidades do mundo. Para os analistas, era um fim de carreira melancólico.

Van der Sar passou quatro temporadas no Fulham. O máximo que conseguiu a serviço do clube londrino foi um nono lugar em 2003/04 e a conquista da insignificante Copa Intertoto de 2002. Mas suas grandes atuações o recolocaram no mais alto patamar. O Van der Sar eclipsado dos tempos da Juventus ficaram para trás. Estava de volta o grande Edwin do Ajax e da Seleção Holandesa. Isso chamou a atenção de Sir Alex Fergunson, que em agosto de 2005 o levou para o Manchester United.

Nos Red Devils, Van der Sar foi titular absoluto, conquistando quatro Premier Leagues, uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes. Suas performances o alçaram ao rol dos maiores goleiros da história do United. Para muitos, inclusive, Van der Sar foi melhor que o mítico dinamarquês Schmeichel.

Júlio César está a apenas meia temporada no Queens Park Rangers. O time amarga a lanterna da Premier League praticamente desde a primeira rodada. Passadas 23 rodadas de 38, o pequeno clube do Oeste de Londres está fadado ao rebaixamento. As atuações do goleiro, entretanto, não passaram despercebidas, apesar do mau desempenho do seu time.

Na última terça-feira, 22 de janeiro, o técnico da Seleção Brasileira Luiz Felipe Scolari fez a primeira convocação da Canarinha após o seu retorno ao comando do pentacampeão mundial. Para a surpresa de muitos, Felipão convocou Júlio César para o amistoso com a Inglaterra, que será disputado no dia 6 de fevereiro.

No dia seguinte à convocação de Júlio César para a Seleção Brasileira, o jornal inglês The Sun publicou que Manchester United e Arsenal estariam interessados em contratar o goleiro brasileiro e que em breve devem formalizar propostas pelo arqueiro. Aos 33 anos de idade, Júlio César é considerado por Alex Fergunson (e também por Arsène Wenger) como experiente o suficiente para assumir a titularidade do Manchester United (ou do Arsenal).

Eis que passados sete anos, as trajetórias de dois grandes goleiros se cruzam de alguma forma. Em 2001, Van der Sar chegou desacreditado a um pequeno time do Oeste de Londres. Em 2005, foi para o Manchester United e deu a volta por cima, voltando a figurar entre os melhores do mundo. Em 2012, Júlio César foi para outro pequeno time do Oeste de Londres. Em 2013, as portas do United, aparentemente, abrem-se para o brasileiro... Júlio César seguirá os passos de Van der Sar?